domingo, 8 de janeiro de 2012

Uma ida à praia

Toda a areia da praia que trouxe nos ténis (ainda foi alguma porque eu resolvi enterrar os pés calçados e tapá-los) repousa agora na varanda do quarto. Talvez a mãe grite quando vir o areal, mas eu vou gostar de me sentar por lá e deixar que o pensamento preencha o resto do espaço com as gaivotas, com o mar, com os gelados ou o leite quente com chocolate (a minha praia não será apenas frequentada no Verão), com as estrelas, com a Lua e contigo.

A areia que vinha sorrateiramente dentro dos bolsos das calças saltou pelo quarto todo quando me preparava para dormir, indo para cima da cama e para o chão. Se havia monstros no quarto, fugiram todos.

Todo o meu quarto é uma praia.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Sol de Inverno

Ao fazer a contagem de dentes, apercebi-me de que há um novo inquilino. Parece que estou a crescer...

Tímida como o novo dente do siso, está a chuva. Para me certificar de que não é por vergonha que ela não cai, todos os dias visto uma peça a mais para que ela não se sinta mal caso me molhe. Ainda assim, não chove desde o início do ano. Confesso no entanto que hoje foi agradável sentir o Sol enquanto estudava na biblioteca. Não aquecia como no Verão, quando me delicio a pôr e a cheirar o protector solar, mas ainda assim era o suficiente para sentir um calor confortável pelas costas.

Levantei-me mais tarde, quando a Terra já tinha mudado de posição à volta do Sol, para ir comer as Oreo para o muro de onde tenho uma boa vista para o rio. Pelo caminho, assobiei várias músicas, tentando imitar o cantor que se ouvia no mp3 ou acompanhá-lo por não saber a letra. Algures num pensamento em que me imaginava ruivo, lembrei-me de que li que o músculo do coração consegue ejectar sangue até uma distância de 10 metros. Parei de assobiar para tentar visualizar isso. Não consegui nem pude usar-me como cobaia, pelo que tratei de comer as bolachas e ver as pombas, cujos corações provavelmente têm bastante trabalho quando elas estão a voar. O meu estava calmo. Comi a última bolacha, retomei o assobio e voltei ao estudo.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Pensamentos...

Ainda não domino a técnica de não chorar com a cebola. Talvez não o queira ou nem precise. Sinto-te através das lágrimas e isso vale os olhos inchados e vermelhos.

Quando hoje começaram a falar em pessoas e nas relações entre elas, pensei em ti. Quando me abraçaram, pensei em ti. Quando me disseram que não me fazia bem isolar-me, pensei em ti. Isso fez com que a glândula lacrimal trabalhasse um pouco. Não quero que fiques chateado (, se estiveres, pensa antes que o meu olho precisava de lubrificação e que por isso o meu sistema nervoso parassimpático achou conveniente estimular a glândula), mas hoje não consegui evitar. Não consegui não pensar que podias ser tu à minha frente a conversar comigo e a dar-me um abraço.

Vim para casa e sentei-me à varanda, com as pernas a baloiçar por não haver chão que as apoiasse, a contemplar o céu. Vi as estrelas e a Lua e sorri, tal como o Principezinho sorri ao olhar para o céu e a pensar na raposa. Senti-te em mim e por isso não senti o frio da noite. Deixei que o nevoeiro me servisse de manta e fiquei por lá mais algum tempo.

Os meus olhos ainda brilham, mas vejo-te neles. Havemos de ser sempre amigos!


(Quando estiveres no meu quarto e quiseres, podes acordar-me.)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

De Kevin para K.

Olá K.

Só comeste um sonho durante a meia-noite da passagem de ano? Havias de estar comigo. Eu tratei de levar todas as compotas que encontrei em casa (desta vez havia de framboesa), mais a manteiga de amendoim, o gelado de coco, as bolachas de chocolate, o leite com chocolate mais cereais e mais coisas para a praia. Fiz um banquete com aquilo (não me ralhes que só como porcarias. Sabes que eu gosto e durante o mês andei a controlar-me para que só tivesse uma dor de barriga) e quando estava na hora de pedir desejos, levantei-me com um salto (a compota de framboesa quase que entornava, mas eu pus a mão à frente e lambuzei os dedos todos) e pus-me aos saltos e a assustar as gaivotas e imaginei-te comigo. E quando isso aconteceu,  PUM! PUM! PUM! Foguetes! Oh, como tu gostas de foguetes! E eu também! Fiquei a vê-los dividirem-se em inúmeros raios coloridos até que depois também explodi de alegria. Senti-te em mim e desatei a gritar o teu nome às ondas. Os peixes resolveram vir à superfície quem era o tolinho que estava a fazer barulho e eu desejei que a luz dos foguetes lhes entrasse pela boca e que eles ficassem a dar luz como os pirilampos ou as luzes do pinheiro.

Não sei se sou tão grande como pensas. Será que não andas a manifestar macropsia ou estás com problemas na percepção do teu próprio corpo? Da próxima vez medimo-nos com uma fita métrica para ver se estou mais alto. Ou talvez não seja preciso. Se descubro que te deixas afectar pelas pessoas que dizem que não és muito normal, garanto-te que te besunto a cara toda com a framboesa e ainda te atiro farinha para cima. Pedes que eu seja forte, mas e que tal também tu seres mais forte? Não sabes que te sinto em mim e que quando estás triste eu também estou? Vá, não penses que sou mais do que tu. Atiro-te a água da chuva, mas tu sempre tiveste mais jeito para inventar constelações.

Todos os dias aproximo-me da janela do teu quarto e misturo-me com os raios de Sol para ser capaz de atravessar o vidro, a persiana, a cortina e chegar até ti. Depois, troco os fotões pelas ondas sonoras para sussurrar-te “bom dia” ao ouvido. Por vezes, quando vejo que dormes profundamente, aproveito as vibrações do ar para te passar a mão no cabelo e assim sentir o teu calor em mim. Quando não vou a tempo de fazer isso porque fiquei demasiado tempo a olhar para ti que acabaste por te levantar, sinto-te através do vento ou da chuva ou do Sol ou até pela neve que costumas imaginar cair.

Não me assusta não ver a outra face da Lua ou as estrelas (pronto, assusta um bocadinho…mas por outras razões. Ainda tenho algum medo do escuro…). Eu sei que elas estão sempre lá e que provavelmente no dia seguinte as voltarei a ver. É como tu e eu. Mesmo que não me vejas, eu acompanho-te sempre, da mesma maneira que quando não vejo a Lua penso em ti. Tenho-te sempre comigo, não duvides.

Gosto de ti :P

Estiveste comigo na praia. Estás comigo hoje. Estarás comigo amanhã,

Kevin (?)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

De K. para Kevin

Kevin (?):

2012 começou há dezanove horas e oito minutos. Chove lá fora, e enquanto a família se queixa da água que cai furiosamente nos vidros, eu caminho lentamente até casa. Tu sabes que eu gosto de chuva e que esses são os meus dias atmosféricos primitivos. Digo atmosféricos, porque a importância de um dia não se resume às ondulações das poças de água que vejo formarem-se quando cai uma gota e que depois interrompo quando desato aos saltos. É certo que gosto bastante quando isso acontece, mas sei que se não estivesses comigo nada teria tanta piada (embora amue quando usas as mãos como conchas para armazenares água para me atirares à água, não o faço por não gostar da tua companhia ou das tuas brincadeiras, mas porque secretamente tenho inveja de não conseguir fazer o mesmo).

Quando o ponteiro dos segundos estava prestes a completar a última volta do ano, a família apressou-se a contar passas, a encher o copo com champanhe e a pôr-se em cima do banco com uma nota no bolso, mas eu deixei-me estar sentado com o sonho na mão. Decidi que seria isso que iria comer para celebrar o mudar dos relógios e assim fiz. E quando os dígitos mudaram para as 00:00 do dia 01-01-12, fechei os olhos e pensei em ti. Sabes, és maior do que aquilo que pensava e embora sempre tenhas sido mais forte do que eu e eu tenha dito que não ia pedir nada, pensei em ti e desejei que nunca me deixasses e que fosses forte.

Consigo ouvir-te repreenderes-me, dizendo que era desnecessário pedir tal coisa. Sei que nunca me deixarás sozinho (o mais provável seria eu deixar-te porque eu é que sou o idiota) e se queria pedir para que alguém fosse forte, não me devia ter excluído das pessoas a fortalecer. Sabes, tenho medo do que possa acontecer se nos afastássemos (já sei que tal não vai acontecer. Eu prometo!). Tenho medo de fique demasiado escuro e que mesmo saindo de debaixo da mesa não encontre o caminho a seguir (pus-me debaixo da mesa porque estava deitado na alcatifa para sentir as projecções dos fios nos braços, o que me provoca cócegas que me fazem rir [de loucura. Rio-me porque imagino o pai a aparecer na sala, a ver-me assim e a dizer que eu não devo ser normal]). Uma vez disseste-me que eu não era tão fraco como pensava, que seria capaz de avançar até encontrar um interruptor que me fizesse ver luz novamente. Até pode ser que assim seja, mas não vamos pôr isso à prova. Tenho a certeza de que a Lua nunca mais teria o mesmo brilho e de que a Ursa nunca mais seria a mesma. Não seria capaz de responder às caretas do espelho e abrir a minha caixa passaria a ser demasiado doloroso. Ser outro que não eu poderia fazer com que eu deixasse de chover, mas isso não seria bom. As lágrimas não são tão más como dizem. Pode haver uma descarga de adrenalina responsável por nos lembrarmos melhor das situações más, mas o cloreto de sódio ajuda a preservar também as boas memórias (, ainda que a impossibilidade de repetição nos possa deprimir).

Não sentir-te em mim seria demasiado assustador.

Olhando para trás, percebo que tive pressa em perceber a rotina diária e por isso ela me pareceu demasiado melancólica. Tive pressa em querer perceber-me a mim mesmo e por isso não percebi que já tinha as ferramentas para fazer isso. Pois, talvez se as pessoas pensassem bem naquilo que projectam nas passas, perceberiam que alguns desejos estão mais perto de se concretizarem do que aquilo que pensam e que muito depende delas mesmas. Eu percebi isso um pouco tarde, mas começo-o a destrinçar. Tu estás sempre um passo à minha frente (às vezes dois ou até mais, depende da passada que resolves adoptar, e no entanto já levas muita mais bagagem do que eu ) e é quando eu me deixo levar pelos frutos secos que te sinto afastado de mim.

Vou dar-te a mão sempre que puder. Juntos havemos de ouvir os foguetes e correr até eles guiados pelos nossos ouvidos. Não digo que as outras pessoas queiram Confundir-me, mas por vezes os frutos secos são  pessoas e não devemos estar à espera que outros façam aquilo que nós queremos. E para além disso, tu disseste para eu acreditar mais em mim e eu tentarei fazer isso.


Já ouço os foguetes e sabes que isso me deixa eléctrico. Sorrio ao pensar em ti, em nós.

Gosto de ti :)

K.