Kevin (?):
2012 começou há dezanove horas e oito minutos. Chove lá fora, e enquanto a família se queixa da água que cai furiosamente nos vidros, eu caminho lentamente até casa. Tu sabes que eu gosto de chuva e que esses são os meus dias atmosféricos primitivos. Digo atmosféricos, porque a importância de um dia não se resume às ondulações das poças de água que vejo formarem-se quando cai uma gota e que depois interrompo quando desato aos saltos. É certo que gosto bastante quando isso acontece, mas sei que se não estivesses comigo nada teria tanta piada (embora amue quando usas as mãos como conchas para armazenares água para me atirares à água, não o faço por não gostar da tua companhia ou das tuas brincadeiras, mas porque secretamente tenho inveja de não conseguir fazer o mesmo).
Quando o ponteiro dos segundos estava prestes a completar a última volta do ano, a família apressou-se a contar passas, a encher o copo com champanhe e a pôr-se em cima do banco com uma nota no bolso, mas eu deixei-me estar sentado com o sonho na mão. Decidi que seria isso que iria comer para celebrar o mudar dos relógios e assim fiz. E quando os dígitos mudaram para as 00:00 do dia 01-01-12, fechei os olhos e pensei em ti. Sabes, és maior do que aquilo que pensava e embora sempre tenhas sido mais forte do que eu e eu tenha dito que não ia pedir nada, pensei em ti e desejei que nunca me deixasses e que fosses forte.
Consigo ouvir-te repreenderes-me, dizendo que era desnecessário pedir tal coisa. Sei que nunca me deixarás sozinho (o mais provável seria eu deixar-te porque eu é que sou o idiota) e se queria pedir para que alguém fosse forte, não me devia ter excluído das pessoas a fortalecer. Sabes, tenho medo do que possa acontecer se nos afastássemos (já sei que tal não vai acontecer. Eu prometo!). Tenho medo de fique demasiado escuro e que mesmo saindo de debaixo da mesa não encontre o caminho a seguir (pus-me debaixo da mesa porque estava deitado na alcatifa para sentir as projecções dos fios nos braços, o que me provoca cócegas que me fazem rir [de loucura. Rio-me porque imagino o pai a aparecer na sala, a ver-me assim e a dizer que eu não devo ser normal]). Uma vez disseste-me que eu não era tão fraco como pensava, que seria capaz de avançar até encontrar um interruptor que me fizesse ver luz novamente. Até pode ser que assim seja, mas não vamos pôr isso à prova. Tenho a certeza de que a Lua nunca mais teria o mesmo brilho e de que a Ursa nunca mais seria a mesma. Não seria capaz de responder às caretas do espelho e abrir a minha caixa passaria a ser demasiado doloroso. Ser outro que não eu poderia fazer com que eu deixasse de chover, mas isso não seria bom. As lágrimas não são tão más como dizem. Pode haver uma descarga de adrenalina responsável por nos lembrarmos melhor das situações más, mas o cloreto de sódio ajuda a preservar também as boas memórias (, ainda que a impossibilidade de repetição nos possa deprimir).
Não sentir-te em mim seria demasiado assustador.
Olhando para trás, percebo que tive pressa em perceber a rotina diária e por isso ela me pareceu demasiado melancólica. Tive pressa em querer perceber-me a mim mesmo e por isso não percebi que já tinha as ferramentas para fazer isso. Pois, talvez se as pessoas pensassem bem naquilo que projectam nas passas, perceberiam que alguns desejos estão mais perto de se concretizarem do que aquilo que pensam e que muito depende delas mesmas. Eu percebi isso um pouco tarde, mas começo-o a destrinçar. Tu estás sempre um passo à minha frente (às vezes dois ou até mais, depende da passada que resolves adoptar, e no entanto já levas muita mais bagagem do que eu ) e é quando eu me deixo levar pelos frutos secos que te sinto afastado de mim.
Vou dar-te a mão sempre que puder. Juntos havemos de ouvir os foguetes e correr até eles guiados pelos nossos ouvidos. Não digo que as outras pessoas queiram Confundir-me, mas por vezes os frutos secos são pessoas e não devemos estar à espera que outros façam aquilo que nós queremos. E para além disso, tu disseste para eu acreditar mais em mim e eu tentarei fazer isso.
Já ouço os foguetes e sabes que isso me deixa eléctrico. Sorrio ao pensar em ti, em nós.
Gosto de ti :)
K.
Suspeito de que, na sua grande maioria, as pessoas, ainda antes de se deixarem enrolar numa rotina que as torna cada vez mais cinzentas, nunca ousaram sonhar com um Kevin que lhes permitisse crescer sem, com isso, perderem o fascínio de uma adolescência em que todas as utopias parecem possíveis.
ResponderEliminarUm Kevin que jamais se assumiria como modelo, que jamais cederia à tentação de sugerir regras e de dar conselhos. Um Kevin amante da liberdade, tão capaz de fazer uma festa à volta de uma vulgaríssima poça de água, como, de seguida, não ter receio de assumir os seus próprios erros.
Tu tens esse Kevin, mas, se calhar, o Kevin é capaz de ter um imenso orgulho por te ter. Pensa nisso!...