À noite, não é só o chocalhar de alguns pensamentos na minha cabeça que ouço. É certo que isso faz muito barulho. De início vêm sorrateiramente, sem que eu me aperceba, como as águas correm num rio de leito aparente. Dali a nada vêm aos turbilhões - é o leito de cheia.
"Liberta a tua mente" era o que eu lia constantemente nos livros de fantasia. Isso é impossível, não? Eu pelo menos nunca o consegui fazer. Quando tentava, surgia um novo pensamento "tens de libertar a mente". E isso só me fazia pensar mais naquilo que pretendia acalmar.
Tic TOC Tic TOC Tic TOC Tic TOC
Da minha cama ouço 2 relógios a trabalhar em contraponto. Em certas noites não me consigo abstrair deles. Porque estarão eles ali?
Será para me embalarem com uma música demasiado monótona e repetitiva?
Não, não me parece.
À falta de um maestro ou maestrina, é útil ter à mão um metrónomo para marcar os tempos, os compassos. Os meus relógios estão ali para me relembrarem que o tempo passa. Todos os segundos tocados têm uma outra intenção para além de me impedirem de adormecer. Querem dirigir os pensamentos que já de si gostam de se impor.
Oh, como dou por mim a amaldiçoar o tempo, a noite, unidades de medida. Quando finalmente adormeço, meto-lhes a língua de fora e grito:
"Não foi prazer algum conhecer-vos. Agora está na hora do silêncio se sobrepor. Até à próxima"

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