Entraram duas moscas pela janela. De repente, elas tornaram-se mais interessantes do que o livro à minha frente, por onde estudava. O meu olhar focou-se nelas, mas segurava ainda na mão a esferográfica, azul.
Os dois insectos voavam em círculos, afastados entre si. Eu gostava muito de saber voar, mas longe já vão os tempos em que me julgava capaz de levitar. Já elas, descreviam acrobacias no ar com a maior das facilidades. De vez em quando, uma aproximava-se da outra, o que resultava num voo frenético em círculos cada vez mais pequenos e com mudanças súbitas de trajectória. Se era assim que se cortejavam, pensei: “mas que grandes patetas”.
Ele respondeu-me: “Patetas? É certo que andam às voltas, mas ainda perseguem alguma coisa. Ainda hoje fizeste cenas parecidas ao vestires os calções enquanto andavas até à cozinha. Que perseguias tu? Nada.”
Não gostei do que ouvi. Uma verdade inconveniente? Não, não acho que seja totalmente verdade. Acho que perseguimos sempre alguma coisa, nem que seja felicidade instantânea numa tablete de chocolate.
“O que eu persigo, torna-se demasiado inacessível a cada passo. Em parte, a culpa é tua. És demasiado exigente. Melhor, és demasiado medricas. Tens medo de tudo.”
“Eu pronuncio aquilo que tu te limitas a dar forma por receares que te traga dores de cabeça. Quando eu falo, tu ouves. Tu crias o teu próprio medo.”
“Isso é mentira!”
“Será? Tu sabes que tens medo de pessoas. Sabes que temes um ‘nós’ porque tens medo de mudar por alguém e no final ficar só um ‘tu’ diferente do que aquele que conhecias. Sabes que tens medo de ser rejeitado e que ao manteres-te isolado não tens de lidar com isso. Sabes que és um eterno insatisfeito e que és capaz de mudar repentinamente de apetites. Sabes que queres várias coisas ao mesmo tempo, algumas das quais são antagonistas. No fundo, sabes que és aquilo que achas que eu sou.”
“Se sei isso tudo, é porque tu gostas de me atormentar.”
“Posso atormentar-te, mas não é porque o goste de o fazer. Tu sabes que sem mim não és nada. Sabes que mais vale estar acompanhado comigo, que te conheço melhor do que qualquer outro, do que com outra pessoa. Diria até que aprecias a minha companhia e que me escutas não porque mais ninguém o faz, mas porque sabes que precisas de me ouvir. Abominas a impulsividade, eu ajudo-te a não seres impulsivo. E ajudo-te porque queres. Se queres que eu mude, terás de mudar também. E se é mesmo isso que queres, perceberás que não te atormento, apenas quero o teu melhor.”
"Hum... Tenho de pensar nisso. Sou demasiado exigente. E medricas. E"
"E pateta também!"
E dou por mim a sorrir sozinho. As moscas desapareceram e está na hora do lanche. Não há tabletes de chocolate, mas há chocolate em pó e chocolate de barrar no pão. E felicidade instantânea deste calibre, ainda que temporária, é precisa de vez em quando.
perfeito!!
ResponderEliminarabc
(às vezes não é assim tão perfeito. Às vezes somos pessoas totalmente diferentes...)
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