Tenho procurado a Sara, mas não a voltei a ver. Pergunto-me se ela ainda se lembra de mim, se ainda sabe o meu nome e a minha idade. Talvez ela tenha uma ideia sobre mim, mas debate-se com o meu nome, tal como se debateu com o nome da Kikinha (será que a Kikinha já mudou de nome?). Sem ela, a estação parece cheia de gente desinteressante. Espero juntamente com uma dezena de pessoas, o Metro é o elo que nos liga umas às outras. Nada sei sobre elas e elas nada sabem sobre mim, nem mesmo que falei com uma menina muito encantadora há uns dias.
Olho para elas e vejo sorrisos, alguns bonitos e outros que me parecem falsos, vejo preocupações estampadas, indiferença, simplicidade e presunção. Ninguém chora, mas há-de haver quem abra as represas interiormente. A senhora ao meu lado lê um livro e à minha frente uma outra senhora segura uma saca de uma padaria. De vez em quando chega-me um cheiro a bolos quentinhos. Ao lado dessa senhora estão uma rapariga e um rapaz. São namorados e beijam-se. Não sou o único a olhar para eles. Esse par devia pensar nos solitários da carruagem pois o seu acto activa sinapses e forma miragens algures no sistema nervoso.
Talvez eu os inveje e seja por isso que digo tal coisa. Pois, quem sabe, será que o sabor do beijo é diferente do do chocolate que seguro numa mão? A dúvida se o sabor é a morango ou framboesa ou côco ou menta ou simplesmente sem sabor é demasiado... intrigante.
Vai um rapaz no Metro com um ar sério. Não carrancudo, apenas cansado e talvez pensativo. Não lhe consigo ver a cor dos olhos porque usa óculos. (Esses olhos brilham, mas brilham por si mesmos ou é só a iluminação da carruagem?). De vez em quando espreita pela janela e parece inalar o cheiro dos pinheiros e das bétulas e das outras árvores que não sabe o nome. Talvez no interior dele estejam a ocorrer explosões de cores, sons, cheiros e ideias. Talvez lhe falte uma tela para registar isso e por isso recorre a um bloco onde escreve. Talvez hoje seja tudo à base do branco e preto. Ele nem sempre consegue manter-se optimista nem resistir ao peso das ideias que o fazem ter birras de criança.
Agora seria uma boa altura para chover. O rapaz gosta de ver as gotas de água a escorrerem pelo vidro. Diz ele que são como pessoas. Gosta também de ouvir o barulho da chuva a bater nos objectos; se ele estiver concentrado, consegue ouvir uma melodia escondida por entre as semínimas que o vento canta. Mas ele gosta mesmo é de sentir a água na cara. A água pode misturar-se e camuflar as lágrimas da cara, mas pode também ser simplesmente um contacto agradável na cara. Às vezes ele abraça-se sozinho, outras deixa-se ser abraçado pela água que os deuses lhe enviam.
Pois...
Talvez o rapaz com ar sério, mas não carrancudo, continue - quando se abraça a si próprio - a privilegiar os sonhos que acredita poderem vir a transformar uma realidade que, se calhar, lhe parece angustiante.
ResponderEliminarTalvez seja por isso que as suas birras de criança o impedem de se concentrar na melodia do vento ou no murmúrio da chuva.
Um dia, quando ele for capaz de, simplesmente, imaginar o cheiro dos pinheiros e das bétulas, talvez se aperceba que é dentro de si que o mundo se veste com as cores do arco-íris. Então, as gotas de água que escorrem pelos vidros serão a sua própria definição do futuro.
as viagens no metro apelam à contemplação intimista...especialmente num dia de chuva...
ResponderEliminardriftin', ... (faltam-me sempre palavras para te responder)
ResponderEliminar00:15, eu acho que um dia de chuva apela sempre à contemplação intimista. Pelo menos comigo é assim.
"Vai um rapaz no Metro com um ar sério. Não carrancudo, apenas cansado e talvez pensativo. Não lhe consigo ver a cor dos olhos porque usa óculos. (Esses olhos brilham, mas brilham por si mesmos ou é só a iluminação da carruagem?). De vez em quando espreita pela janela e parece inalar o cheiro dos pinheiros e das bétulas e das outras árvores que não sabe o nome. Talvez no interior dele estejam a ocorrer explosões de cores, sons, cheiros e ideias. Talvez lhe falte um tela para registar isso e por isso recorre a um bloco onde escreve. Talvez hoje seja tudo à base do branco e preto. Ele nem sempre consegue manter-se optimista nem resistir ao peso das ideias que o fazem ter birras de criança.
ResponderEliminarAgora seria uma boa altura para chover. O rapaz gosta de ver as gotas de água a escorrerem pelo vidro. Diz ele que são como pessoas. Gosta também de ouvir o barulho da chuva a bater nos objectos; se ele estiver concentrado, consegue ouvir uma melodia escondida por entre as semínimas que o vento canta. Mas ele gosta mesmo é de sentir a água na cara. A água pode misturar-se e camuflar as lágrimas da cara, mas pode também ser simplesmente um contacto agradável na cara. Às vezes ele abraça-se sozinho, outras deixa-se ser abraçado pela água que os deuses lhe enviam."
Este relato é-me tão familiar...