sábado, 1 de outubro de 2011

Não vás. Ainda é noite



Os meus sonhos costumam ser demasiado imbecis para que neles pudesse ouvir uma música tão bonita. Nem mesmo nos sonhos menos anormais conseguiria ouvir aquilo. Só podia ser o despertador a tocar e sendo assim, já não dormia. Estava acordado.

Levantei-me involuntariamente assim que parei o alarme do telemóvel. Ainda ensonado, dirigi-me ao quarto de banho. O frio das lajes nos pés e nas mãos o frio do lavatório indicavam-me que estava em frente ao espelho, mas os olhos, cansados e magoados pelo sono e pela claridade das luzes, não queriam abrir. Via ainda as luzinhas amarelas em fundo preto.

Tu podias ser os meus olhos naquele momento, mas não estavas ali.

Usei as mãos como concha e passei água pela cara. Mais frio, mas era revigorante. Aos poucos os olhos abriam e comecei a distinguir os objectos pousados no armário ali ao lado. Vi-me ao espelho. O cabelo estava despenteado e o lado esquerdo da cara estava vermelho. Foi a tua mão ontem à noite que me despenteou. Disseste que os teus dedos eram elfos que viviam no meu cabelo e exemplificavas passando a mão no topo da minha cabeça. Os teus dedos facilmente passariam por elfos, altos e esguios, mas o meu cabelo jamais poderia ser a moradia de seres tão perfeitos. Tu não concordaste comigo. Disseste que em mais nenhum lugar se pode sentir um cheiro tão bom a frutos silvestres. E para mo comprovares, cheiraste-o profundamente e fingiste que comias uma framboesa.

Voltei ao quarto para ir buscar roupa para vestir. Arrastei os pés para que a madeira não rangesse e tu acordasses. Sempre te invejei por conseguires fazer aquela dança em que todos os teus movimentos não produziam qualquer ruído, mesmo quando pousavas os pés no chão depois de teres dado um salto. Peguei nas primeiras coisas que os meus dedos palparam e fui tomar banho. O champô não era de frutos silvestres – apanhei-te na tua brincadeira. Não pude deixar de sorrir no entanto.

A minha barriga roncou (ou como tu dizias depois de veres “À Procura de Nemo”, falava baleiês). Na cozinha comi um iogurte (esse sim de frutos silvestres) e um pão com Nutella. Só havia um pão e o chocolate estava a acabar. Pensei para mim que irias ter pouca sorte quando acordasses, mas era bem feito – para a próxima não comas o que bem te apetece ao jantar; se pensas que eu vou estar sempre a deixar metade do meu pequeno-almoço para ti, estás bem enganado.

Quando saí à rua estava nevoeiro e o chão estava molhado. Seria do orvalho ou da birra que fizeste ontem quando eu te disse para te portares bem porque eu estava a ler?

Não estavas comigo para que pudesse perguntar-te se tinhas ido chorar para a varanda antes de eu ter colhido as tuas lágrimas para fazer cristais de halite para nós dois.

Continuei por isso o meu caminho até ao Metro (parecia que te conseguia ouvir a dizer que já não é Metro mas sim Noventa Centímetros porque, dada a sua lentidão, tu o tinhas penalizado). Numa das paragens sentou-se um homem ao meu lado. Não lhe vi a cara porque estava concentrado na leitura, mas era impossível não prestar atenção ao cheiro dele. Um perfume forte (sabes que para mim os perfumes são todos iguais), mas que apenas se notava ligeiramente porque havia um cheiro ainda mais forte, a tabaco. Troquei de lugar e prossegui a leitura no Noventa Centímetros.

Tu podias ser as partículas no ar que provocavam o cheiro, mas tinhas ficado na cama.

O dia arrastou-se com o ponteiro das horas. Tentei em vão transfigurar o 3 num 8 para que pudesse voltar para casa para junto de ti. Tentei em vão que o Sol se deslocasse mais rapidamente para chegar a casa e ver-te à minha espera na varanda.

Agora já estou em casa, mas não junto a ti. Ainda vou ter de esperar mais algumas horas, ainda tenho de adormecer. Tu podias estar aqui agora, mas és o produto de um sonho. E mesmo sendo eu capaz de sonhar acordado, é quando estou a dormir que tu apareces e me começas a fazer cócegas ao de leve nos braços. Acordas-me e temos um dia inteiro em conjunto até que a noite acabe e o despertador volte a tocar.

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