Vi no outro dia um rapaz que andou comigo do 5º ao 9º ano. Foi ele o meu primeiro verdadeiro amigo e o melhor até ao 7º ano. Eramos parceiros de mesa e lembro-me de passarmos as aulas na conversa, dos intervalos em que íamos comprar chocolates e depois ficávamos a jogar à bola atrás do pavilhão, das inúmeras mensagens que trocávamos quando estávamos em casa sozinhos. Lembro-me até de lhe estar a dizer as respostas do teste de Inglês e a professora nos apanhar. Eu prontamente neguei que o deixava copiar e o idiota confessou o crime. Fiquei chateado com ele, mas passou depressa. Coisas de putos evidentemente, mas naquela altura eu gostava mesmo muito daquele contacto.
A partir do 8º ano começamos a distanciar-nos. Eu apercebi-me disso e tentei que as coisas não seguissem aquele rumo, mas não via o mesmo esforço da parte dele. Talvez ele nunca tivesse visto a nossa amizade como algo bom. Talvez fossemos apenas uns pequenos seres humanos que não tinham noção das coisas. Talvez.
O tempo tratou de tudo. Distanciamo-nos cada vez mais e eu não tardei a ser a pessoa que fazia os resumos para os testes por quem toda a gente tirava fotocópias. Naquele período de tempo não tive mais nenhum verdadeiro amigo, apenas um grupo pequeno de pessoas com quem me dava bem.
No aniversário dele no último ano em que fomos colegas de turma, já eu tinha consciência que eramos apenas “colegas de turma e que por isso é melhor convidar para a festa de aniversário” e não amigos. Era no final do ano lectivo e em breve seguiríamos para escolas diferentes. Já não me recordo porquê, mas resolvi escrever-lhe uma carta que lhe ofereci em conjunto com o resto da prenda. Não me lembro de tudo o que escrevi, mas sei que lhe disse que ele tinha sido o meu melhor amigo e que, infelizmente, tinha vindo a perder ao longo dos anos mas que jamais esqueceria, “porque as coisas boas da vida nunca se esquecem” [acho que foi mesmo isto que eu escrevi]. Ele abriu-a durante o jantar, leu, agradeceu, ficou indiferente, virou a cara e continuou a conversa com os rapazes ao lado. Não sei se a leu mesmo ou se apenas deu uma vista de olhos. Não sei se mais tarde releu ou pôs simplesmente ao lixo. Sei que naquele dia não liguei, mas no Sábado passado, quando o vi depois de mais de 5 anos, senti uma certa tristeza.
Lembrei-me de várias coisas que passamos juntos e pensei no que nunca chegamos a fazer. Talvez nunca estivessem destinadas a acontecer, mas ainda assim. Talvez não tenha feito o suficiente, talvez o devesse ter cumprimentado quando o vi a uns metros. Mas não, não me mexi e ele não me viu, ou pelo menos também não veio ter comigo.
Nas poucas vezes que passei por ele na rua quando já andávamos no Secundário apenas nos cumprimentamos com o banal “Então, tudo bem?”. Já só eramos conhecidos. Agora somos o equivalente aos conhecidos somente pelo Facebook.
Vieram outros amigos, partiram outros. Eu continuo.
É tão ridícula esta coisa do "equivalente aos conhecidos somente pelo Facebook".
ResponderEliminarTratam-se com essa indiferença há mais de 5 anos e são amigos no fb? Para quê? para fazer número e parecer que têm muitos amigos?
Não, nada disso. Eu não tenho Facebook sequer. Estava precisamente a comparar o estado da nossa relação às situações que ouço dizer no Facebook que fulaninho de tal tem não sei quantas centenas de amigos.
ResponderEliminarTambém já tive um amigo assim, éramos os melhores amigos, irmãos, mas devido a um mal entendido entre as nossas famílias nunca mais nos falámos. Apesar de ele ser parvo e tudo isso eu gostava bué dele e tive imensa pena.
ResponderEliminarestava a ler este post e estava-me a lembrar duma história similar que aconteceu comigo... num ano grandes amigos, no ano seguinte meros conhecidos...uns bons anos mais tarde reencontra-mo-nos, aproxima-mo-nos, e tudo estava a correr bem até ao momento em que ele fez asneirada da grossa e desta vez fui eu quem o decidiu afastar.
ResponderEliminarAcho que nós rapazes, uns mais do que outros, não levamos a profundidade das amizades até uma altura mais madura da vida...que fiquem as boas lembranças!
É pena Lobo Solitário, é pena...
ResponderEliminar00:15, é triste que assim seja. Eu espero não ficar incluído no grupo dos que não levam a amizade até uma altura mais madura da vida...
Eu nunca tive amizades dessas com rapazes, que me lembre.
ResponderEliminarquando era adolescente, tinha os chamados amigos de rua.
iamos aos aniversários uns dos outros e jogávamos playstation e à bola.
Valorizavam-se actividades e objectos comuns, tinhamos os mesmos interesses e desejos.
hoje, quando passo por eles na rua, ficamo-nos por um aceno. e acho que nem quero que passe disse.
as pessoas crescem, ganham objectivos e têm outros interesses. o que faz com que muitas vezes se separem.
Aquilo que nos unia noutros tempos deixou de existir e assim a amizade foi desvanecendo.
Entretanto, não me arrependo que isso tenha acontecido. Gostava de continuar a 'falar' mais com alguns, é certo, mas sempre que se perde alguma coisa, ganha-se outra.
e estou bastante contente com o que ganhei / tenho ganho ao longo deste tempo.
:)
se calhar o teu amigo não teve coragem para te dizer que gostou do que leu. ou então, simplesmente, estava numa outra fase de crescimento em que ainda não estava pronto para perceber esse tipo de sensibilidade e afecto.
É um pouco triste que assim seja. Uma relação de amizade tem muitas vezes por base os elementos em comum, mas não deve limitar-se a isso. A pessoa em si deverá ser o mais importante.
ResponderEliminarÉramos novos naquela altura e assim como ele não deu importância à carta, eu não dei importância a esse facto. A nossa amizade desvaneceu-se, apenas gostava de saber se ele ainda se lembra daquilo...
Eu tenho um melhor amigo há 15 anos...juntos já partilhamos imenso. Já rimos, já choramos, já vivemos momentos bonitos, momentos horríveis, momentos assim assim....
ResponderEliminarCom a idade, fomo-nos afastando. Ele arranjou namorada, trabalha e joga numa equipa de futebol. Pouco tempo livre tem. Poucas vezes nos vemos agora, quando antigamente nos víamos todos os dias. Nunca lhe disse que estive apaixonado por ele durante 8 anos. Nunca lhe contei que sou gay...
Enfim....é triste o ponto a que as pessoas chegam quando crescem....assim como é triste tudo o que abdicamos com medo de perder algo que é muito valioso para nós - mas talvez indiferente para o outro...