Ao caminhar para a estação vejo as pessoas a correrem para se abrigarem da chuva. Os carros são implacáveis e não abrandam quando passam nas passadeiras e a água salta por tudo quanto é lado para depois voltar a cair. Olhando para as poças que se acumulam no pavimento não vejo o meu reflexo, vejo antes as luzes dos painéis luminosos dos edifícios circundantes. Continuo a andar e chego lá dentro. Desço pelas escadas normais, vazias como sempre, para depois subir do outro lado. Vejo caras conhecidas, dou o típico “olá” e vou para um canto esperar que chegue o veículo. Foi ali que conheci a Sara. Não a voltei a ver desde então e tenho-a procurado sempre que lá estou. Ela já deve ter ido várias vezes à Terra do Nunca e talvez já não se lembre de mim. O Peter também se esquecia da Wendy…
As viagens de metro tornam-se bastante agradáveis assim que o céu se torna negro e as nuvens aliviam as mágoas. Encosto a cabeça ao vidro e tento perscrutar a noite. No vidro vão várias gotas de água que deslizam desde lá de cima até cá baixo e olhando para os candeeiros de lá de fora vejo pequenos risquinhos que vão desaparecendo para darem lugar aos primos. Sinto por vezes o sono a querer apoderar-se. A semana tem sido cansativa. Tenho o caderno aberto entre as pernas e os olhos lêem sempre o mesmo. Naquele estado sonolento as coisas parecem fazer sentido e eu dou um salto e penso “isto é óbvio”, mas quando tento recordar-me do pensamento que tinha estado há momentos na minha cabeça tudo parece uma mancha. E é claro que nada daquilo fazia sentido porque devia era estar a misturar duas realidades, a que fica posterior às pálpebras e a que lhe fica imediatamente adiante.
Quando a gravação anuncia a última paragem, há já um rapaz que está pé, com o casaco vestido, o carapuço sobre a cabeça com os cordões completamente puxados. Fica bastante engraçado com a cabeça praticamente tapada. Há também o senhor que ainda dorme encostado à janela e que eu vou acordar antes de sair.
Caminho em direcção a casa. Os ténis embatem no chão e ouve-se o repinchar da água. Ouço também os pensamentos na cabeça com os quais me debato. Alguns guardo em gavetas, outros exigem que reflicta neles mais alguns momentos. Pensar pode evitar erros. Pensar pode conduzir a erros. Mas não será essa uma maneira de tirar um certo peso ao erro? Penso que voltei a ser Harry ou Dobby, mas por algum motivo acho que as pessoas ficam demasiado ligadas e eu demasiado afeiçoado de modo que depois ficamos todos com a mente toldada. Urgh, odeio esta sensação.
Já perto de casa, cai-me uma gota na cara. Apenas uma que se dividiu em muitas assim que passou por entre a lente dos óculos e o olho para embater na bochecha. Sorri.
É bom caminhar pela chuva, sem guarda-chuva ou mesmo com ele. Os dias chuvosos têm uma mística especial ou talvez sejam os nossos olhos que vêem magia onde ela não existe.
ResponderEliminarAs nuvens e a escuridão da noite podem aliviar as mágoas. Elas escondem-se no meio da penumbra taciturna. Por isso, às vezes, o amanhecer é bem pior.
^^
Eu gosto bastante de caminhar pela chuva à noite. As ruas ficam praticamente desertas, as luzes dos candeeiros dançam nas poças, os carros pisam a água e fazem aquele som que parece abafar os motores a trabalhar...
ResponderEliminarO amanhecer tem também a sua mística. A paisagem do lado de lá do vidro da carruagem do Metro torna-se bastante bonita e enquanto consigo contemplá-la (as vezes o sono ainda pesa um pouco), fico deslumbrado...
quando a imagem se pinta na cabeça do leitor ao ler um texto, é bom sinal.
ResponderEliminarÉ, de facto, bom sinal.
ResponderEliminarObrigado!