Hoje, depois de ter estado uma hora com as mãos dentro de água ao ponto dos dedos enrugarem e assim ganharem a forma do que pareciam ser cordilheiras montanhosas, lembrei-me de ti e de quando usavas o teu indicador para percorres as linhas da minha epiderme. Passavas vários minutos a fazer isso, o que por vezes me embalava, outras fazia-me entrar em pânico porque me fazia impressão e cócegas. Conhecias a minha palma da mão melhor do que a tua. Sabias de cor as imensas auto-estradas ao longo do meu corpo, as suas intersecções, a mais direita e a mais tortuosa, o trânsito nelas provocado pelas feridas ou cicatrizes e ainda estavas a par das estações de serviço marcadas pelos sinais cutâneos. Por vezes paravas numa delas e também tu adormecias.
Ainda te lembras de quando adormecemos juntos pela primeira vez? Deitámo-nos alegres porque tínhamos bebido uma garrafa de champanhe foleiro e devorado gelado. Se as sinapses não estivessem inibidas e o meu cérebro não estivesse sedado pelo álcool talvez nunca nos tivéssemos deitado juntos. Eu não gostava de dormir acompanhado. Ficava limitado nos movimentos, havia desnecessariamente fenómeno de agregação que aumentava a temperatura e estava sujeito a acordar com um ronco ou movimento da outra pessoa. Sem dúvida alguma que dormir sozinho era mais vantajoso, mas naquela noite lá estavas tu ao meu lado. Não te podia acusar de fazeres barulho ou de mexeres-te descontroladamente. Estavas bastante tranquilo, de barriga para cima, o que me permitia ver o teu peito insuflar e esvaziar ritmadamente. Inconscientemente ajustei a minha respiração pela tua, o que me fez antever que ias mudar de posição. Aproveitei para também eu o fazer.
Fiquei de costas para ti, o que me fez entrar em pânico. Se acordasses eu não saberia. Se estivesses a olhar para mim eu não saberia. Se estivesses a pôr-me a língua de fora eu não saberia.
Fiquei de costas para ti, o que me fez entrar em pânico. Se acordasses eu não saberia. Se estivesses a olhar para mim eu não saberia. Se estivesses a pôr-me a língua de fora eu não saberia.
Pelo calor que comecei a sentir nas costas deduzi que estava voltado contra ti. Apesar de tudo sabia bem – fazia-me lembrar uma tarde de Verão na praia, quando fico deitado a secar-me ao Sol e sinto-o os raios a cobrirem-me como um lençol e a evaporar a água gelada. O calor propagou-se e rapidamente o quarto parecia-me demasiado quente. O sistema nervoso simpático começara a actuar e naquele estado de alarme resolvi perguntar se estavas a dormir. Não sei se realmente estavas e se por isso desencadeaste uma resposta motora, apenas sei que o teu braço passou a ficar por cima de mim. Foi o pânico total. O meu coração parecia não ter espaço para bombear silenciosamente e por isso parecia gritar.E se isso te acordasse? E se percebesses que eu estava nervoso? Comecei a cantar mentalmente, à espera que o coração abrandasse, mas ele parecia determinado a contrariar-me. Maldito!
boom badum badum badum badum
Aguardei que tu tirasses a mão, o que acabou por acontecer. O meu coração já não haveria de atraiçoar-me e decidi voltar-me para controlar-te. Fi-lo e fiquei quase com a cabeça junto à tua. Como se o susto já não fosse grande por me ter posto numa posição mais comprometedora, vi-te de olhos abertos. Por instinto fechei os meus e naquela milésima de segundo pensei para mim que nada tinha acontecido fora da minha cabeça. A confirmação de que estava errado foi quando os abri novamente com uma mordidela no nariz. Sorrias para mim e aproximaste o teu nariz do meu. Estava quente e pensei para mim que devias ter a face corada. Se fôssemos esquimós podíamos ter dado um beijo naquela altura. Eu não ousava mexer-me. Ainda tentei dizer-te “não consigo dormir aqui com o calor. Vou para a varanda” e assim escapar do teu poder, mas tu tapaste-me a boca com uma mão, silenciando-me, e com a outra levaste a minha mão ao teu coração.
boom badum badum badum badum
Estavas tão nervoso quanto eu, o que me acalmou (espera, com que então tinhas sentido o pulsar do meu coração?!). Quando há mais alguém que sente o mesmo do que nós, sentimo-nos menos estranhos.
Depois disseste:
Gosto de ti!
E rimo-nos.
(«Como se pode morrer de ataque cardíaco quando não se tem coração?» Pois, nós ainda havemos de morrer assim...)
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Perfeito! *w*
ResponderEliminarChegaste a saber o seu nome? : )
x)
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