sábado, 24 de março de 2012

Fósseis

Olho para o relógio e conto os segundos. Os segundos somam-se e formam minutos que agrupados aos molhos de 60 dão uma hora. As horas dão dias, que se tornam em meses e eventualmente passam-se anos. 

Um ano passou desde que comecei a escrever aqui. E nesse tempo muitas coisas passaram-me pela cabeça. Umas perderam-se no movimento dos ponteiros do relógio ou foram engolidas pelo cuco que espreita de vez em quando, outras sentaram-se e acomodaram-se neles e acompanham-me desde essa altura. Confirmei isso quando no outro dia li aleatoriamente alguns textos aqui publicados e me apercebi de que poderia mudar a data em que eles foram escritos para a actual e eles ainda assim continuariam a fazer sentido. Pelo menos para mim. Quanto a outros rio-me pela estupidez do seu conteúdo (basicamente rio-me da minha estupidez) e outros parecem-me escritos por outra pessoa que não o eu de agora. 

No início fazia da minha homossexualidade um bicho-de-sete-cabeças e as hormonas andavam aos saltos com o início da Primavera. Estar sozinho custava e fiz sei lá quantas vezes a birra “quero ter alguém!”. Ao longo do passeio com o tempo isso mudou e, a bem ou a mal, houve pessoas que conheci pelo caminho que também contribuíram para isso. Agora sou eu o bicho-de-sete-cabeças e os conflitos internos são bem maiores do que a homossexualidade (onde já vai essa!) e são-no assim porque na minha cabeça não há limites para o pessimismo, confusão, complicação e incoerência das minhas ideias.

(K, “Life could be simple but you never fail to complicate it every single time!”)

Pensando no bem maior, isolar-me não me parece agora tão descabido já que a minha companhia deixou de me ser desagradável e será melhor para todos se não se criarem laços que poderão ser causa de transtorno porque servirão de amarras ou serão motivo de descontentamento. Nessa minha companhia posso ainda dar tranquilamente passeios à chuva, posso comer sozinho a compota de morango, posso devorar as bolachas de chocolate sozinho, posso dançar com a Ursa e falar sozinho, posso sonhar com situações que gostava que fossem reais mas que só serão realidade na minha cabeça porque se lá tudo pode ser estúpido é igualmente verdade que pode ser tudo como eu quero já que eu controlo as variáveis todas. É claro que há efeitos secundários. A realidade fora da minha cabeça parece-me cada vez mais desinteressante e em compensação o que tenho na cabeça torna-se cada vez mais apetecível, de modo que se instala um desencanto duplo. Por um lado devido à frustração com a realidade, por outro devido à frustração dos pensamentos serem só pensamentos.

(Pois, realmente eu nunca falho nisso...)

Eu gostava de ser capaz de viver um dia de cada vez, mas essa tarefa parece-me hercúlea. Estou constantemente a pensar no futuro, em dias completamente desconhecidos mas sobre os quais eu gostava de ter uma ideia. Gostava de saber que nesse futuro eu serei capaz de viver com mais calma porque isso provavelmente quererá dizer que os dias se tornaram agradáveis e que sou capaz de vivê-los sem estar constantemente em mudanças. Gostava de não ser constantemente perseguido por pensamentos que eu próprio crio sobre tudo o que me rodeia.

(Gostava disso...)

11 comentários:

  1. «Pensando no bem maior, isolar-me não me parece agora tão descabido, já que a minha companhia deixou de me ser desagradável e será melhor para todos se não se criarem laços que poderão ser causa de transtorno...»

    «...Mas agora sei que um indivíduo solitário não tem préstimo nenhum.»

    «Ele deve ser tão infeliz por estar numa gaiola sozinho, sem direito a opinar...»

    Bem sei que são frases talvez retiradas do respectivo contexto e, aparentemente, sem grande apetência para se relacionarem umas com as outras, não é?

    Quando citas John Steinbeck e, depois, te referes ao teu periquito, dás a entender que a solidão não é irrelevante. Não é, propriamente, um óptimo lugar para permitir que os sonhos ganhem asas.

    Por que carga de água é que hás-de querer meter na cabeça que o futuro é uma coisa que cabe na palma da tua mão?!... Quando lês um livro, limitas-te à primeira e à última página? Se o fizeres, é verdade que não gastas muito do teu tempo, mas acabas por não ter possibilidade de saborear os pormenores - momentos que, provavelmente, poderiam contribuir para te tornares num rapaz menos angustiado com o que desconheces.

    Já pensaste que podes, se o quiseres, obrigar o futuro a dar meia volta para que não sejas condicionado por ele? É que, bem vistas as coisas, o futuro - o teu futuro! - não está escrito num qualquer livro que, um belo dia, possa ir parar-te às mãos.

    Estar sozinho não é, de facto, assim tão assustador. Podes conversar com os pássaros, saltar para dentro das poças de água, andar pelo parque da cidade enquanto falas ao telefone com um amigo que está longe...! Já reparaste que, de repente, até tens um amigo que está longe?!

    Trata mas é de ir preparando esse futuro que te assusta. A calma e os dias agradáveis talvez dependam de ti. Da forma como desenhas o presente.

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    1. «...na minha cabeça não há limites para o pessimismo, confusão, complicação e incoerência das minhas ideias.»

      Deixei ali o aviso de que o que escrevo pode não fazer sentido algum. Sendo assim, retirar frases do seu contexto inicial e montá-las de novo pode ser mais consciente.

      A solidão neste momento, neste presente, não é coisa que me assuste. Ao contrário do meu periquito, eu sei que posso fazer mais do que comer num lado da gaiola, beber água no outro e ficar parado em cima de uma trave de plástico. No entanto, não sinto que aquilo que não faço actualmente seja assim tão essencial para me permitir viver algo mais parecido com aquilo que tenho na cabeça [e o que é que eu quero da vida? e será possível? eu sei lá!] ou que me faça mudar de opinião quando faço a avaliação do dia quando me deito à noite.

      O que assusta é pensar que um dia, no futuro, essa solidão possa interferir na percepção da minha vida e que eu passe então a concordar com o Casy e o Tom quando dizem que um indivíduo solitário não tem préstimo nenhum. Por isso é que o futuro assusta!

      Eu gostava de ser capaz de expulsar definitivamente alguns pensamentos da cabeça, mas mais cedo ou mais tarde eles voltam. Já o tentei fazer. Já tentei ocupar o lugar deles com outras coisas, mas eles arranjam maneira de aparecerem novamente e me importunar. E eu, idiota, não consigo tornar-me indiferente a eles. Sempre que investem contra mim, eu caio.

      Se não fosse o amigo que está longe e outros (que embora mais perto, ainda longe), estaria bem pior do que agora. O silêncio seria apenas a ausência de som e eu não seria capaz de sorrir para muitas estrelas.

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  2. Olá K.!

    Antes de mais, parabéns! ^w^

    Como tu bem sabes, eu entrei neste mundo o mês passado e quando tive a oportunidade de conhecer o teu blog, li-o desde o primeiro post até ao mais actual.

    Tu evoluíste muito. =)

    Eu compreendo muito bem o que tu sentes. Sentes-te deslocado deste mundo, desta realidade. Durante anos, o mesmo se passou comigo. Confesso que ainda tenho fases em que isso me acontece. Na minha modesta opinião, creio que isso faz parte da nossa essência, enquanto seres imperfeitos.

    É, talvez, a grande diferença entre os seres humanos e os restantes animais: essa capacidade de auto-análise, auto-crítica, essa busca incessante por respostas.

    Referes por diversas vezes, a tua vontade de estares sozinho e o facto de apreciares cada vez mais a solidão. Uma vez mais, entendo-te e compreendo-te perfeitamente.

    No entanto, fico um pouco triste com isso...

    Pareces ser um rapaz muito inteligente, culto, interessante e certamente, uma excelente companhia. Entendo que no passado houve pessoas, situações (ou ambas as coisas!) que te fizeram sofrer e por causa disso, estejas tão determinado em isolares-te.

    Como teu "amigo", gostava de te relembrar que: "não é por morrer uma andorinha, que se acaba a Primavera." Assim, dá uma oportunidade à vida. Dá uma oportunidade às outras pessoas. Quando te isolas, tens controlo sobre tudo o que te rodeia...ou pelo menos acreditas que sim. Mas no fundo, isso é uma ilusão.

    Como eu digo num dos meus posts: "É o teu coração que faz com que a Realidade seja má e detestável. (...) Se mudares a tua perspectiva e a tua posição, muitas coisas podem-se transformar radicalmente no teu coração."

    Quem sabe se ao mudares a tua perspectiva, a vida começa a sorrir-te também?

    Boa sorte e uma vez mais, parabéns!

    Um grande abraço! :3

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    1. Algures na evolução a que te referes, houve abalos sísmicos de todos os tipos, erupções vulcânicas, colisão com meteoritos, aproximação a buracos negros, reacções químicas que provocaram explosões, reacções físicas discretas e sei lá mais o quê. E cada uma dessas situações era resultado e simultaneamente causa de outras tantas como ela. Alguma da evolução foi boa e ajudou-me na pedalada, mas já outra não foi assim tão boa quanto isso.

      Inicialmente isolei-me porque me senti magoado com uma pessoa, mas agora não posso continuar a atribuir as culpas somente a ela. Sei que agora sou bastante responsável por isso. Agora sou eu que fico relutante em dar oportunidades às pessoas porque não vejo sentido ou necessidade em fazê-lo.

      Talvez mudando a minha perspectiva conseguisse viver as coisas de um modo não pior do que agora. Sim, talvez. Eu próprio acredito nessa possibilidade. Tenho de fazer um esforço para que o mundo deixe de ser um lugar estranho, mas sinto sempre relutância em fazê-lo e faço birra por as coisas não mudarem por si. Acho que preciso de um empurrãozinho. Se começar a andar, então talvez deixe os meus ténis levarem-me a sítios novos...

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  3. « Quinta-feira, 24 de Março de 2011

    Finalmente decidi começar um blogue.


    Neste momento não vejo um Futuro para mim.
    Enquanto isso, fico com o Passado e com o Presente...
    »

    Guardaste o passado, ali, em âmbar.
    Esse Passado, numa outra perspectiva, foi também o teu Futuro. O futuro que tu não vias - mas em alguma ocasião chegamos a vê-lo concretamente?

    O Presente vais tendo tu nas mãos e nos olhos e nos ouvidos e no nariz, nessa sucessão de segundo, minutos, horas....

    Ao longo desta caminhada, os dias foram-se, certamente, tornando mais agradáveis... ?
    E, se calhar, alguma porção disso prendeu-se com o facto de te teres permitido conhecer outras sombras e os seus donos.

    E eu agora fico a pensar onde estaria(s) agora, se num dia destes não tivesse(s) iniciado uma relação com o blogger :)

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  4. É interessante pensar que o Passado, Presente e Futuro andam sempre de mãos dadas de modo que o presente de agora se torna automaticamente passado e o futuro vai sendo sucessivamente presente e passado.

    Estive a ler o texto da quinta-feira, 24 de Março de 2011, e ri-me com alguns dos fósseis. Não sei onde tinha a cabeça quando escrevi algumas daquelas coisas. Acho que tinha âmbar no cérebro x)

    Se não tivesse iniciado uma relação com o blogger nunca teria conhecido certas sombras e seus donos. Talvez tivesse encontrado satisfação noutro lado e pensasse que não tinha perdido nada de especial.

    »Every path is the right path. Everything could've been anything else. And it would have just as much meaning.« (Mr Nobody)

    Estou contente com o caminho que escolhi e com as pessoas que conheci pelo caminho. Não o trocaria por nada, nem mesmo por todos os chocolates do mundo! As sombras tornaram-se estrelas e a sua luz foi, e é, muito importante ao longo do percurso.

    «Dr Bernard Hazelhof also said that everyone's lives are like a very long sidewalk. Some are well paved. Others, like mine, have cracks, banana skins and cigarette butts. Your sidewalk is like mine but probably not as many cracks. Hopefully, one day our sidewalks will meet and we can share a can of condensed milk.» (Mary & Max)

    :)

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  5. Acho que não é bom fechares-te em demasia. A vida é melhor partilhada.

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  6. Parece-me que passaste do 8 para o 80...
    É só encontrar um equilíbrio, ele existe xD

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    1. Pois, talvez. Ainda ando à procura do tal equilíbrio equilibrado.

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