sábado, 23 de julho de 2011

Nem todas as noites são iguais

Coco. E baunilha. A minha pele cheirava a isso anteontem à noite.
Não era mais uma fase de todo o processo de metamorfose. Era o cheiro do creme que tinha posto na cara. Sou tão guloso que além de tudo o que já como (wi-fi incluído), até como cheiros. E devo dizer que aquele coco e baunilha estavam verdadeiramente saborosos.

E se às vezes é verdade que adormeço sem correr a persiana, outras vezes alguém corre a persiana até ao fim. E quando isso acontece, fica tudo às escuras, como o poço de um elevador.


Ontem à noite julgava apenas ser capaz de distinguir onde estava o meu ombro e a forma que o lençol adquiriu depois de eu me refastelar na cama. Ou seria apenas a minha mente a pregar-me uma partida? Não sei. Não pude ficar a ver as luzes da rua e as gaivotas não grasnaram. Não pude ver a Lua.

Mas a Lua até foi simpática. Quando hoje fui para a praia de manhã, ela lá estava, sobre o mar. Talvez quisesse ser a gaivota ou o peixe que eu fui. Talvez quisesse ser mais feminina e fosse a sereia que encanta os piratas. Ou talvez ela me quisesse encantar a mim.

Só sei que desta vez não me apeteceu um gelado, mas sim bolachas de limão, com aquela cobertura doce ligeiramente ácida. Hum... estou a ficar com fome.

Hoje estive a examinar a minha sombra. Era engraçada.
Estava à espera que ela tentasse fugir de mim e que fosse preciso cozê-la ou colá-la com sabão aos meus pés, mas ela não fez nada mais do que examinar-me. Pergunto-me se me terá achado engraçado como eu a ela...

"E agora, no coração da noite como um guarda-nocturno, descobre o que a noite mostra ao homem: os apelos, as luzes, a inquietação. Uma simples estrela na escuridão: uma casa isolada. Uma luz apaga-se: é uma casa que se fecha sobre o seu amor.
Ou sobre o seu aborrecimento. É uma casa que deixa de fazer o seu sinal ao resto do mundo. Não sabem o que esperam, aqueles camponeses de cotovelos na mesa e com um candeeiro à frente: não sabem que o seu desejo vai assim tão longe, na grande noite que os encerra."
Saint-Exupéry - Voo Nocturno

8 comentários:

  1. "E quando isso acontece, fica tudo às escuras, como o poço de um elevador." Sem saber bem porquê, esta metáfora desperta em mim uma sensação de asfixia e pânico um pouco tonta. Apesar de não ser claustrofóbico, depois de ler isto, acho que nunca mais vou deixar alguém correr a persiana xD

    ResponderEliminar
  2. Não me sinto asfixiado ou em pânico, mas confesso que gostei muito da noite em que dormi sem ter corrido a persiana e agora sinto saudade de ver a Lua :)

    ResponderEliminar
  3. Todos nós sentimos falta de algo por vezes. De algo que não conseguimos ter ou ver. Mas o facto de não a termos sempre, de não a vermos sempre, faz com que se torne ainda mais especial cada momento, cada vislumbre.
    Ps: De qualquer maneira anoitece todos os dias. Hoje, se não for lua nova, podes vê-la novamente xD

    ResponderEliminar
  4. Sim, anoitece todos os dias, mas nem todas as noites são iguais xD

    "Mas o facto de não a termos sempre, de não a vermos sempre..." pressupõe que temos alguma coisa. E se não tivermos?

    Abraço ;)

    ResponderEliminar
  5. Se não tivermos podemos sempre contemplar, observar e sonhar como seria se algo fosse nosso. Mas, por outro lado, nem sempre precisamos de ter algo ( no plano físico ) para poder ser nosso. Às vezes o sonho e o desejo podem sobrepôr-se à realidade xD

    ResponderEliminar
  6. Às vezes confundo realidade com sonho. E quando me apercebo disso, sou atingido por uma grande desilusão xD
    Sonhar é bom, mas quando sonhamos com algo que não temos, os resultados não são bons (falo por mim :P)

    ResponderEliminar
  7. Pois seria muito mais fácil se a fronteira entre o sonho e a realidade estivesse mais visível. No entanto, é o sonho que comanda a vida, por isso que seriámos nós sem ele? Mesmo com dissabores, eu acho que vale a pena sonhar xD

    ResponderEliminar
  8. Claro que vale a pena sonhar. Eu adoro sonhar :D

    Agora lembrei-me do poema do António Gedeão, "Pedra Filosofal" :)

    ResponderEliminar