quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Do I make you proud?

Eu tenho duas mãos e dois braços, duas pernas e dois pés. Tenho um só nariz, mas tenho dois ossos nasais. Parece que a anatomia humana foi feita com base no número dois. E é bom que as coisas existam aos pares - se uma delas for lesada, a outra permanece e tenta manter as funções.

A minha disposição também varia ao longo do dia, normalmente. Hoje de manhã acordei bem disposto, saltei no quarto e agitei os braços como se eles fossem uma espiga de milho agitada pelo vento. Mas agora estou a ouvir a mesma música e os meus membros não respondem freneticamente como de manhã. Estou apático e embora tenha uma tablete de chocolate mesmo ao lado, não me apetece comê-la. Na verdade, não me apetece fazer nada.


Agora a música mudou e quer-me parecer que os olhos querem soltar lágrimas, mas isso não pode acontecer. Fico com a visão desfocada e ainda tenho coisas para ler.


Estive sentado na sala com a luz apagada. O LED da televisão e do aparelho que fica por baixo emitiam luz vermelha; olhando para a janela via as luzes do candeeiro que depois de sofrerem reflexão, refracção e muitos mais fenómenos, chegavam até mim como uma cruz laranja. E eu era capaz de ficar a olhar para essa cruz até à eternidade. Quando ela se apagasse, talvez eu tombasse do sofá e me apagasse também.

Não sei dar o valor certo às coisas e dou demasiada importância às coisas que não devia. Eu sei-o porque caso contrário não diria que levantar-me da cama é como um reflexo do meu corpo ao ouvir do despertador e que ligar o despertador na noite anterior é um processo automático que faço apenas porque tenho de fazer. Não é contudo algo que eu não goste minimamente de fazer: antes de levantar-me da cama fico a ouvir a música do despertador que foi escolhida não com o intuito de me acordar, mas para que eu possa apreciá-la. Mas também não é algo que eu queira mesmo muito fazer.
Acho que não me sinto realizado. E sim, provavelmente não tenho razões para dizer isto e devia estar mas é calado (já estou calado. Todo eu estou muito calado hoje), mas sinto isso. E também acho que isso não muda durante o dia, apenas às vezes está selado com vários encantamentos para não dar por mim a pensar nisso.

Pergunto-me agora se posso fazer algo para mudar isso.
("Posso fazer algo para mudar isso?")
Provavelmente sim. Seria extremamente difícil porque volto aos meus patamares mais cedo ou mais tarde. Apercebo-me que o que imagino na cabeça não tem qualquer possibilidade de existir. É tudo demasiado perfeito e utópico. Na vida real isso jamais será assim.
Tenho de me contentar com o que tenho e usar as ferramentas que me vão sendo dadas para tentar mudar o suficiente para chegar a um patamar que me traga estabilidade.

Agora alguém deveria bater-me. Eu gostava de dar um estalo alguém, mas acho que seria mais justo que alguém me desse um a mim. Estou a entrar num processo de resignação com a estagnação e decadência em que me encontro. Que treta, agora até me apetecia cair abaixo da cadeira e ficar deitado até adormecer.

2 comentários:

  1. Não sei se um estalo poderá ser a solução para ti!...

    Tanto quanto julgo perceber pelas tuas palavras e, sobretudo, pelas entrelinhas, continuas a manter-te em permanente desassossego e, se calhar, vais sê-lo pela vida fora. Não creio que isso seja negativo, pelo contrário, talvez te permita estar sempre um passo à frente daquela espécie de satisfação que acaba por ser sinónimo de conformismo.

    Deixa lá essa ideia de realização pessoal. Vais ver que a alternativa - aquela que te há-de permitir desejar chegar mais longe - acaba por ser muito mais suculenta.

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  2. És a primeira pessoa que me diz isso. Concordo contigo, mas admito que fico bastante dividido quando me interrogo se o permanente desassossego em que me encontro não poderá ser negativo. Acho que na verdade nunca pensei foi nessa alternativa.
    Nunca estar satisfeito é provavelmente uma condição para se ser humano. Penso que isso não é inteiramente mau, uma vez que por vezes aprendemos muito sobre nós próprios com isso. No entanto às vezes perdemos a capacidade de nos apercebermos daquilo que é realmente importante.

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