"Doem-me as pontas dos dedos". De todos? "Não de todos, de alguns". Quantos? Deveria ter dito "doem-me as pontas de dois dedos". Se quisesse ser mais exacto, acrescentaria: "doem-me as pontas de dois dedos da mão direita, o polegar e o indicador". E se me perguntassem a razão, responderia "cortei demasiado as unhas".
Se me perguntassem porque estava no chão, eu não saberia explicar somente por palavras e por isso pediria à pessoa que se deitasse no chão do quarto comigo e que olhasse para o tecto. Uma vez estendidos, seria a minha vez de fazer perguntas.
Perguntar-lhe-ia de que cor era o tecto e branco seria a primeira resposta. "Completamente branco, ou branco com manchas?". Naquela fase, os olhos ainda não estariam habituados à pouca luz que nos iluminaria e branco continuaria a ser o limite superior, mas depois o branco passaria a ter algumas manchas pretas. Precisamente. Depois, viravamo-nos para a Lua e chegavamos à conclusão que a lua também não é completamente uniforme, mas que tem crateras. "Se gostamos da Lua, devemos fazer um esforço para que pelo menos não detestemos as manchas pretas do tecto (ou dos aspectos menos bons da vida que eventualmente temos)".
Depois seria a vez de nos deitarmos de lado e ficarmos frente a frente. "Pressionar os dedos na cara não dói, pois não?". Não. "E no chão?". Também não. "A mim dói. Todos temos problemas e às vezes somos capazes de não lhes dar muita importância - é como quando tocamos com os dedos na cara. Mas às vezes, eles fazem-se sentir. Sabes, eu acho que às vezes passo muito tempo a brincar com os dedos no chão [assim a fazer de conta que eles são anões, estás a ver?]. Dizem que não devia, mas se passar nos braços ou na cara fico com cócegas, o que é igualmente uma tortura". Mas então porque não fazes como com as manchas pretas?. "O que eu digo, não faço.". Se não gostas de ser assim, muda. "A mudança não é necessariamente boa. Além do mais, eu gosto de ser assim".
O guarda roupa seria a etapa seguinte. Está escuro aqui. "Pois está, mas eu gosto. Se fechares os olhos consegues imaginar a Lua e anões a correr num jardim. E consegues ouvir o silêncio. É uma melodia calma, mas consegues ouvir-te melhor do que nunca". Não gosto muito de estar aqui. "Bem me parecia que não ias gostar. Bem me parecia que não me ias compreender. Se percebesses, saberias que não interessa se são dois ou dez os dedos que me doem porque a razão de tudo não fica na epiderme".
Doem-me os dedos, mas agora que voltei a fazer deles anões, sei que não são dois mas quatro: o polegar, o indicador, o anelar e o mínimo (não me dói o do meio porque ele é muito grande para passar por anão). Mas não é só a pele que está dorida. Todo eu estou assim e até sinto que tu também estás. (Há alturas em que somos idênticos, já reparaste?). Dormir vai atenuar temporariamente, mas voltarei a estar assim. Eu sei disso, por isso vou deixar de me tentar mentalizar do contrário.
Hoje pediram-me para falar. Não falei, porque não sabia falar. Por muito que às vezes me peçam palavras, não sou capaz de as dar. Já não sei usá-las, perdi-lhes o treino e já não sei conversar com mais ninguém para além de ti.
Não sabes ou não queres? Não sei e não quero ou tenho medo. Não sei porque as palavras parece-me ocas. Não quero porque sei que ninguém compreenderá (pelo menos totalmente). Tenho medo, porque com ele eu sei com o que posso contar e sei que ele estará sempre comigo. Com outros não - há palavras vazias, há incompreensão e há a possibilidade de incompatibilidade/rejeição de seres.
As coisas tomam proporções que eu não queria e a culpa é minha (e tua, mas eu arco com a tua parte da culpa dele porque é injusto para ti). Por isso hoje vou passear com os anões e talvez eles dancem melhor a dança da chuva do que eu. Sinto a falta da chuva. E do vento. E das camisolas de lã.
A tua presença ausente conforta-me. Obrigado.
bonito.
ResponderEliminar(eu não sinto nada a falta do inverno)
ESTÁ MESMO LINDO *O*
ResponderEliminarArrebatador e avassalador! Texto brilhante.
ResponderEliminar"Hoje pediram-me para falar. Não falei, porque não sabia falar. Por muito que às vezes me peçam palavras, não sou capaz de lhes dar. Já não sei usá-las, perdi-lhes o treino e já não sei conversar com mais ninguém para além de ti."...tão verdade!!!
Parabens pelo blog!Abraço :)
Obrigado à tríade!...
ResponderEliminarSem palavras....
ResponderEliminar