Mãe, olha a grruca! gritou a menina na estação, apontando com o dedo para o túnel do Metro.
Gruta, corrigiu a mãe e continuaram a andar para abandonarem a estação.
Eu lembro-me das viagens de comboio em que a mãe dizia “agora vai ficar noite e por isso têm de dormir. Boa noite!” quando nos aproximávamos dos túneis. Eu e os meus irmãos riamo-nos, mas depois fechávamos os olhos e tentávamos prolongar o escuro do lado de fora. Acho que nunca conseguimos aguentar muito tempo porque depois algum de nós soltava uma gargalhada e voltávamos a ficar eufóricos por tudo lá fora correr muito rápido enquanto nós estávamos sentados. Às vezes ainda fecho os olhos e torno-me cúmplice da noite encenada por falta de iluminação. Quando ouço os risos, sorrio e sei que é dia novamente.
Havia algo de diferente no andar dela. Não estava apressada nem seguia em linha recta, ia antes… a dançar enquanto andava. Desfilava sem preocupações e tinha um sorriso nos olhos porque a boca abria e fechava. Sim, ela estava a cantar. Era cá das minhas. Passamos lado a lado e ela não reparou em mim. Podia ter-lhe feito concorrência naquele corredor, já que também eu seguia caminho com música nos ouvidos e não me importava com a maneira como os meus pés pisavam o chão e até me servia dos dedos e das mãos para fazerem de bateria, mas não o fiz. Assumi o papel de espectador e ainda me virei para trás para a ver novamente entretida a apreciar o momento. Depois segui caminho, meio envergonhado. Não era capaz de igualar o porte dela.
Ao ouvir o som da máquina de escrever, dos pratos a serem estilhaçados e dos livros a serem rasgados por um grupo de gorilas aproximei-me do ecrã no meio da loja. Aquela era das minhas músicas preferidas do filme quando eu tinha quê, 8 anos? Agora estava com mais dez em cima, mas não deixei de trautear a melodia como dantes fazia, tentando acertar nos shooby doop e nos dobby dop. Ao meu lado, um miúdo com menos de 8 anos apertava o comando da PS3 e disparava freneticamente contra a parede manchada de sangue que aparecia no ecrã dele. Estranho...
![]() |

Não conheço essas músicas que falas (já vou nos 31 e tive outras cantorias na minha idade), mas lembro-me ainda das da minha infância. E é tão bom recordar! =)
ResponderEliminar