-Um, dois, três!
Saltavas da cama e arrastavas-me contigo. Dizeres os números era o feitiço contra a preguiça que nos deixava entorpecidos. Só assim nos conseguíamos levantar e deixar os lençóis que pareciam insistir em ser a nossa roupa do dia. Em seguida, dançavas sempre qualquer coisa para despertares completamente. Eu demorava a completar essa parte porque assim dava-te tempo para ires até cozinha e dares pela falta do pão.
-Se não há vai comprar! – dizia eu.
-Vai tu! – respondias.
-Eu disse primeiro! E despacha-te que eu tenho fome. – respondia de volta.
Dizia aquilo para te provocar. Queria saber se te atrevias a sair de roupão e chinelos de quarto até à padaria da frente. Tu nunca viste isso como um desafio. Saías descontraidamente e se alguma criança a caminho da escola te estranhasse (“já é Carnaval?”) ou fizesse troça, punhas-lhe a língua de fora e adoptavas um passo galante que deixava sempre os miúdos embasbacados. Nunca fraquejaste, mas é claro que depois me testavas a mim. Comias os melhores pães (fofos e quentes, barrados com muita manteiga) e eu ficava com os demasiado estaladiços ou mais queimados (que enchia de compota). Também eu nunca me queixei. Era o preço a pagar pelo espectáculo que tu me proporcionavas. Observava sempre aquele teu desfile em roupas pouco típicas na rua da janela com entusiasmo e quando te ia abrir a porta de casa deixava-me ficar encostado à porta a ouvir-te a assobiar. Os pássaros que se abrigavam no parapeito da janela pareciam escutar-te, mas na verdade era eu e só eu que ficava deslumbrado contigo. Descobriste a clave, o compasso, a tonalidade, o andamento e o timbre com que eu vivia e sentia as coisas, pelo que ao ouvir-te eu ouvia o mundo.
Por vezes não cantavas. Algo na rua silenciava a tua boa disposição. Eu sentia-o também porque o eco dos teus passos soava diferente, mais pesado. Sentavas-te num degrau das escadas e respiravas profundamente. Eu ia buscar-te. Sentava-me ao teu lado e abraçava-te. Ficávamos assim durante algum tempo que eu contava pelas batidas do teu coração. 9. Depois das 9 tu soltavas-te do abraço e lançavas um desafio:
-O primeiro a chegar lá acima fica com o croissant de chocolate!
Havia sempre mais do que um croissant, por isso não era preciso correr. Subíamos a pé coxinho e ríamo-nos quando algum inquilino do prédio nos via e fazia uma cara de desagrado.
Nas vezes em que eu sonhava que tinha sido levado por um buraco negro tu nunca me deixavas sair de casa sem um sorriso na cara. Dizias tu que enquanto os meus lábios não se afastassem e os meus olhos não brilhassem da maneira como tu gostavas eu estava nu e, por isso, não podia sair à rua porque poderia ferir a susceptibilidade das pessoas. Punhas-te entre mim e a porta e começavas a fazer caretas. Isso era o suficiente para eu sorrir, mas às vezes ficávamos a jogar ao jogo do sério. Nunca resisti muito tempo. Em poucos segundos estava a rir-me. Abrias então a porta e desejavas-me um bom dia.
Quantos nus via eu na rua. Era triste (acho que era isso que te desanimava quando vinhas da padaria) e eu cumprimentava-as na esperança de que elas saíssem dos seus próprios buracos negros. Acho que nunca fui capaz de sorrir como tu.
E agora sinto eu falta do teu sorriso e por isso faço o que me ensinaste. Ligo a torneira quente da banheira, espero que o quarto de banho fique cheio de vapor, ponho-me em frente ao espelho embaciado e contorno os meus olhos e boca no reflexo. Imagino que estás ali comigo e conto-te as peripécias do dia. Enquanto o vapor se mantém esqueço um pouco a solidão, mas quando ele se esfuma constato que os meus pensamentos existem, mas não são reais.
Ainda que acentues o facto de haver mais do que um croissant, a verdade é que o de chocolate deve ser bastante mais apetecível. Mais saboroso.
ResponderEliminarTambém sei que nunca te preocupaste com essa coisa de trocares os "b" pelos "v", mas apesar de insistires na ideia de que a ordem dos factores continua a ser arbitrária, há imagens que, por caricatas, acabam por provocar algumas gargalhadas. Sonoras ou mais reservadas.
...E, naturalmente, és bem capaz de principiar a andar à volta das minhas palavras à procura do sentido que elas parecem não possuir. Não te vou facilitar a vida, até porque as pistas estão lá todas. Sempre quero ver se a tua perspicácia foi capaz de sobreviver às loooooongas férias!
As férias foram de facto loooooongas e espero mesmo que a perspicácia não tenha inventado mais férias. Vou buscar a lupa para investigar as tuas palavras!
EliminarÉs um romântico :)
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