Vinha com o livro aberto em cima das pernas, mas os meus olhos iam fechados e eu dormitava apoiado na janela do Metro. O serpentear da carruagem nos carris tinha-me embalado, embora o assento não fosse confortável e eu não tivesse espaço para as pernas. Na minha cabeça, as personagens do livro misturavam-se com os seres que habitam na minha cabeça e o resultado final era algo confuso, mas que num sonho parece sempre tão simples e óbvio. Não levava relógio no pulso, mas a gravação que anunciava as paragens revelava que já vinha assim durante algum tempo. Senti a carruagem a parar e a senhora que ia à minha frente a sair. Ficando o ligar dela vazio podia continuar naquele transe mesmo sem a força que me embalava porque já ia bem encaminhado e finalmente podia esticar as pernas.
Isso pensava eu, mas alguém aproximou-se e ocupou o lugar vazio. Abri os olhos para me endireitar no banco. À minha frente ia agora um rapaz que não intercalou as pernas com as minhas como é costume. Pô-las antes frente a frente com as minhas, de modo que eu sentia as rótulas deles a baterem nas minhas. Estranhei, mas não me incomodava muito. Voltei a fechar os olhos.
Passado algum tempo senti pressão nos meus joelhos, mas pensei que tal se devia ao movimento normal do Metro que fazia com que eu batesse na perna do rapaz. Continuei por isso no meu estado de sonolência, sem dar importância ao caso. Mas aquilo não parava e abri os olhos. Parecia-me que era o rapaz que me empurrava o joelho. Fiquei alerta e comecei a ler. O toque na perna continuava. O meu coração aumentou de frequência. Olhei para o rapaz à espera que ele dissesse "desculpa" e desviasse as pernas, mas não. Continuava a tocar-me com o joelho, tal como eu faço quando quero captar a atenção de alguém que está em frente a mim sem ter de chamar a pessoa pelo nome, e ainda me olhava fixamente. Por essa altura, o meu coração já concorria com os motores do Metro e parecia querer suplantá-los no que dizia respeito a potência. Já não ouvia o sibilar dos carris, agora tinha um tambor pelo corpo todo.
Reli a mesma linha várias vezes, mas não fui capaz de prestar atenção alguma às palavras. O toque continuava e eu tentei desviar as pernas, mas ele acompanhou o meu movimento, de modo que continuamos com as pernas encostadas. Como quem não quer a coisa, respondi-lhe discretamente ao gesto, pensando que ele sentiria o toque e pararia.
Pensamento ingénuo. Ele continuou e não tirava os olhos de mim. Senti-me corar e tive de puxar o casaco para esconder a cara. Não sei se ele percebeu que eu estava embaraçado, apenas sei que parou com as pernas, tirou o telemóvel e pôs-se a carregar nas teclas. Já começava eu a pensar que as coisas iam amainar, mas depois percebi que ele estava a posicionar o telemóvel de modo a que eu visse o que estava escrito no ecrã.
Era um número de telemóvel!
Aquilo era muita coisa para eu assimilar, não sabia o que fazer ou dizer. A perna recomeçou e agora penso que teria sido engraçado se ele me tivesse acertado na posição certa do tendão para despoletar o reflexo rotuliano. Um pontapé involuntário nele e tudo seria diferente! Mas isso só aconteceria nalguma comédia romântica e para mim aquilo era um drama!
Para o rapaz pode ter sido uma tragédia. Não apontei o número, não fiz qualquer som [estupidamente pensei "ao menos ele não ouve o meu coração"], não me mexi mais.
Passados uns minutos ele saiu e eu respirei profundamente.
Agora rio-me da situação.
:)
Agora penso que podia ter-me mexido e grunhido um pouco.
:D
olha, tiveste algo que muitos sonham. Devias ter aproveitado :)
ResponderEliminarEsta é daquelas coisas que pensas que só acontece aos outros, não a ti. O meu cérebro parou, não sabia o que era suposto fazer...
Eliminarahahahahahah amei!
ResponderEliminarOlha isto pode parecer estranho mas detesto que as pessoas me toquem no metro.então quando tenho que ir num cheio é um suplício, só vou quando não posso esperar mais, mas ñ suporto que me toquem, vou sempre muito encostadinho lol enfim...
olha, sinceramente acho que esse gesto dele foi grosseiro e furtivo... acho tensa esse tipo de atitude dele para ctgo.
Não me incomoda que me toquem, só se o toque for exagerado xD
EliminarQuando ele pôs os joelhos em frente aos meus não me importou. Quando vi que ele estava a tentar captar a minha atenção entrei em pânico. Foi estranho o que ele fez. Fico a pensar "quem é que dá um número de telemóvel a um estranho?". Mas foi engraçado xD
Era giro, ao menos?
ResponderEliminarEra. Mas abusava no perfume.
EliminarNão deixa de ser curioso e bastante romântico que este episódio te tenha acontecido em pleno dia de são Valentim!
ResponderEliminarDevias ter prestado atenção ao horóscopo desse dia! ;P