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Uma. Duas. Três. Quatro. Mais infinito.
Eram muitas as gotas de água ao longo da corda do estendal. Eram os restos da chuva do formigueiro dos últimos dias. Pus um dedo numa das extremidades e fui a caminhar, a passo lento até à outra extremidade, arrastando o dedo ao longo do fio verde como faço no frasco da manteiga de amendoim. As gotas iam escorregando para a palma da mão onde formaram um pequeno lago.
Nesse lago querias pôr um peixe, mas não nos decidíamos: eu queria um peixe palhaço, tu um grama real. A minha escolha era tímida, a tua pacifica. Optamos antes por usar o lago como um espelho. Nas águas cristalinas vi o reflexo da tua cara e quando pus a minha cabeça à frente da tua, tu atiraste a água contra mim.
Soltaste uma gargalhada quando me viste a tremer com o contacto da água fria no meu corpo. Acordaste um pássaro que voou sobre ti, como se estivesse a investigar quem perturbava a frequência das partículas do ar.
O teu riso jamais poderá ser imitado por alguém. Conquistaste-o ao longo do tempo e agora fazes inveja aos melhores compositores, às melhores orquestras. Não há melodia como a tua.
Ao passar pelas árvores do quintal, os ramos batiam ao de leve no topo da minha cabeça. Por vezes tinha de me abaixar para que um não me atingisse a cara e a sujasse. Levavas-me às cavalitas porque dizias que eu era uma pena que tu, o índio, levavas na cabeça.
Lá mais para baixo, a relva húmida molhava-te os pés. Eu disse que devias calçar aqueles ténis que de vez em quanto tos escondo para eu usar, mas tu disseste que querias sentir o calor da terra, porque isso te fazia sentir vivo. Pouco depois disseste que a brisa matinal te fazia cócegas e pousaste-me no chão.
Fomos então para junto do poço. O interior estava escuro como a noite de ontem quando nos deitamos. Escuro como os teus olhos. Pusemo-nos a gritar lá para dentro e ouvimos o eco. Depois atirámos seixos lá para dentro e ficamos a imaginar os círculos que se desenhavam na água.
"Se caíssemos lá para dentro, ficaria escuro, mesmo durante o dia. Juntos esperaríamos até que a Lua ficasse exactamente por cima da abertura do poço e então saberíamos que estávamos juntos ao luar. Os raios de luz brilhariam nos teus olhos e seríamos felizes assim".
Vi os teus olhos brilharem naquele momento, como se neles se desenrolasse o que acabara de proferir. O brilho foi-se quando uma nuvem tapou o Sol por cima de nós. Não fazia mal, continuavas a brilhar para mim.
Pus a minha mão sobre o teu peito nu. Estava quente (e moreno; juntos fazíamos um bonito contraste) e quando senti o teu coração a pulsar debaixo da minha mão, arrepiei-me. O meu coração principiava a sincronizar-se com o teu.
Depois fechei os olhos e a última coisa que recordo é de sentir as tuas mãos ásperas (que para mim são suaves) na minha cara. Passaste pela testa e penteaste-me o cabelo. Roçaste os olhos, a linha do nariz e depois paraste na minha boca. Senti o teu dedo pressionar o meu lábio superior e murmuraste
"Voltaremos a encontrar-nos. Quando o verde ficar branco."
Depois...
Uma. Duas. Três. Quatro batidas do relógio. Acordei.

És, possivelmente, bem mais do que simplesmente parvo!...
ResponderEliminarAlém disso, apesar de parecerem intrometidos e despropositados, os relógios possuem uma pitada de racionalidade que nós, humanos, ainda não somos capazes de entender.
Já alguma vez te disseram que, por vezes, as tuas palavras são o reflexo do luar na superfície do orvalho?
Não te preocupes com a aparente dificuldade de o verde poder tornar-se branco. Aguarda pela quarta batida do relógio. Vais ver que não demora assim tanto!...
Um dia alguém disse que eu era fantasticamente parvo. Eu cá não sei, por isso continuo a dizer que sou simplesmente parvo.
ResponderEliminarNão, nunca ninguém me disse isso. É uma frase bastante bonita, mas não sei se se aplica a mim.
(parece que há muitas coisas que não sei...)
Eu aguardo. Pela quarta batida. e pela neve...