segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Jardins. Eu e "tu"


Uma. Duas. Três. Quatro. Mais infinito.
Eram muitas as gotas de água ao longo da corda do estendal. Eram os restos da chuva do formigueiro dos últimos dias. Pus um dedo numa das extremidades e fui a caminhar, a passo lento até à outra extremidade, arrastando o dedo ao longo do fio verde como faço no frasco da manteiga de amendoim. As gotas iam escorregando para a palma da mão onde formaram um pequeno lago.
Nesse lago querias pôr um peixe, mas não nos decidíamos: eu queria um peixe palhaço, tu um grama real. A minha escolha era tímida, a tua pacifica. Optamos antes por usar o lago como um espelho. Nas águas cristalinas vi o reflexo da tua cara e quando pus a minha cabeça à frente da tua, tu atiraste a água contra mim.
Soltaste uma gargalhada quando me viste a tremer com o contacto da água fria no meu corpo. Acordaste um pássaro que voou sobre ti, como se estivesse a investigar quem perturbava a frequência das partículas do ar.

O teu riso jamais poderá ser imitado por alguém. Conquistaste-o ao longo do tempo e agora fazes inveja aos melhores compositores, às melhores orquestras. Não há melodia como a tua.

Ao passar pelas árvores do quintal, os ramos batiam ao de leve no topo da minha cabeça. Por vezes tinha de me abaixar para que um não me atingisse a cara e a sujasse. Levavas-me às cavalitas porque dizias que eu era uma pena que tu, o índio, levavas na cabeça.
Lá mais para baixo, a relva húmida molhava-te os pés. Eu disse que devias calçar aqueles ténis que de vez em quanto tos escondo para eu usar, mas tu disseste que querias sentir o calor da terra, porque isso te fazia sentir vivo. Pouco depois disseste que a brisa matinal te fazia cócegas e pousaste-me no chão.

Fomos então para junto do poço. O interior estava escuro como a noite de ontem quando nos deitamos. Escuro como os teus olhos. Pusemo-nos a gritar lá para dentro e ouvimos o eco. Depois atirámos seixos lá para dentro e ficamos a imaginar os círculos que se desenhavam na água. 

"Se caíssemos lá para dentro, ficaria escuro, mesmo durante o dia. Juntos esperaríamos até que a Lua ficasse exactamente por cima da abertura do poço e então saberíamos que estávamos juntos ao luar. Os raios de luz brilhariam nos teus olhos e seríamos felizes assim".

Vi os teus olhos brilharem naquele momento, como se neles se desenrolasse o que acabara de proferir. O brilho foi-se quando uma nuvem tapou o Sol por cima de nós. Não fazia mal, continuavas a brilhar para mim.
Pus a minha mão sobre o teu peito nu. Estava quente (e moreno; juntos fazíamos um bonito contraste) e quando senti o teu coração a pulsar debaixo da minha mão, arrepiei-me. O meu coração principiava a sincronizar-se com o teu.

Depois fechei os olhos e a última coisa que recordo é de sentir as tuas mãos ásperas (que para mim são suaves) na minha cara. Passaste pela testa e penteaste-me o cabelo. Roçaste os olhos, a linha do nariz e depois paraste na minha boca. Senti o teu dedo pressionar o meu lábio superior e murmuraste

"Voltaremos a encontrar-nos. Quando o verde ficar branco."

 Depois...

Uma. Duas. Três. Quatro batidas do relógio. Acordei.

2 comentários:

  1. És, possivelmente, bem mais do que simplesmente parvo!...

    Além disso, apesar de parecerem intrometidos e despropositados, os relógios possuem uma pitada de racionalidade que nós, humanos, ainda não somos capazes de entender.

    Já alguma vez te disseram que, por vezes, as tuas palavras são o reflexo do luar na superfície do orvalho?

    Não te preocupes com a aparente dificuldade de o verde poder tornar-se branco. Aguarda pela quarta batida do relógio. Vais ver que não demora assim tanto!...

    ResponderEliminar
  2. Um dia alguém disse que eu era fantasticamente parvo. Eu cá não sei, por isso continuo a dizer que sou simplesmente parvo.

    Não, nunca ninguém me disse isso. É uma frase bastante bonita, mas não sei se se aplica a mim.

    (parece que há muitas coisas que não sei...)

    Eu aguardo. Pela quarta batida. e pela neve...

    ResponderEliminar