sábado, 17 de setembro de 2011

Havia uma música que dizia "dois sóis, um só sentido", não era?

-Quando for grande quero ser astrónomo.
-Para quê?
-Para estudar estrelas, planetas, satélites naturais, cometas, meteoróides, fenómenos espaciais e especiais e mais outras coisas que ainda não sei.
-Mas para que é que queres limitar-te a estudar, se as podes ter?
-Ter?
-Sim. O que se passa lá em cima é um reflexo do que se passa cá em baixo em grandes proporções. Há pessoas que são brilhantes como as estrelas e quando crescem tornam-se gigantes vermelhas. Outras são como os meteoróides, deslumbram-nos e fazem-nos pedir desejos. Os satélites naturais são as pessoas apaixonadas, girando à volta de alguém. Infelizmente, há também cá na Terra buracos negros. Evita-os!
-Eu sou uma estrela?
-Para mim, és a estrela mais brilhante que existe. És aquela que os olhos meus olhos procuram incessantemente nas noites mais escuras porque és tu... Sim, tu, pára de te rir. És tu que brilhas mesmo quando a escuridão me envolve e me aquece. Na verdade, eu costumo pôr-te no bolso do pijama. (e às vezes, manténs-me acordado porque brilhas demasiado e és muito grande para o meu bolso)
-Então pronto. Quero desde já coleccionar estrelas. Queres ser a minha primeira aquisição?

Foi assim que começámos a coleccionar estrelas, satélites naturais, cometas, meteoróides, fenómenos espaciais e especiais. Às vezes experimentávamos outros papéis. Fui Lua, fui cometa, fui meteoróide, mas evitei sempre ser buraco negro.

Agora, agora fomos separados. Terá sido o vento que nos empurrou para lados opostos? Será que o hélio se acabou a algum de nós e agora não somos capazes de nos ver um ao outro nas noites pintadas de preto?
Li uma notícia que ias gostar. Foi descoberto um planeta com dois sóis. Já imaginaste ver dois pores-do-sol? Já pensaste que não íamos ter de esperar tanto tempo para ver eclipses? Já pensaste que não íamos ter de competir com quem ficava com o sol na caderneta, porque havia um para cada um de nós?

Queria ser capaz de te mostrar a minha caderneta de estrelas. Se o conseguisse, a primeira página (e a segunda e a terceira) voltaria a ter o brilho de outrora e eu não me sentiria sozinho. Não te tenho comigo e em desespero, insultei aquele planeta. Disse que ele era poligâmico e que não gostava disso e que por isso ele nunca havia de entrar na minha colecção. Espero que ele tenha percebido que o amor faz-nos ser estúpidos e que na verdade eu tinha era ciúmes de ele ter alguém presente...

Sinto a tua falta. Estou à tua espera e todas as noites procuro-te da minha varanda. Tenho deixado a janela aberta para que possas entrar e alojar-te de novo no pijama. Enquanto te procuro, rio-me. Pode ser que o meu riso te atraia até mim.  Pode ser que a vibração das partículas do ar sejam detectadas pelas tuas máquinas e que o teu telescópio consiga ver a ténue luz que ainda emito (na verdade, o que fiz foi passar o teu pó de estrela no meu corpo...).

Sinto a tua falta...




-As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para os viajantes, as estrelas são guias. Para outros, não passam de luzinhas. Para outros, os cientistas são problemas. Para o meu homem de negócios, eram ouro. Mas todas essas estrelas estão caladas. Tu, tu vais ter estrelas como mais ninguém…
-O que é que isso quer dizer?
-À noite, pões-te a olhar para o céu e, como eu moro numa delas, como eu me estou a rir numa delas, para ti, é como se todas as estrelas se rissem! Vais ser a única pessoa do mundo que tem estrelas capazes de rir!
E voltou a rir.
-E quando te tiveres consolado (porque acabamos sempre por nos consolar), hás-de sentir-te muito contente por me teres conhecido. Hás-de ser sempre meu amigo. Vai-te apetecer rir comigo. E, às vezes, sem mais nem menos, vai-te dar para abrir a janela, só porque é bom… E os teus amigos hão-de ficar de boca aberta quando te ouvirem rir a olhar para o céu. Mas tu dizes-lhes: “Pois é! As estrelas sempre me deram vontade de rir!” E eles ficam a pensar que tu estás maluco. Rica partida que eu te vou pregar, não é?
E voltou a rir.
-É como se, em vez de estrelas, eu te desse quinhentos milhões de guizinhos capazes de rir!
E voltou a rir. Depois, fez-se sério e disse:
-Esta noite… Vê lá se percebes… Não venhas comigo.
-Vou! Vou! Não te quero abandonar!
-Mas há-de parecer que me dói muito… Há-de parecer que eu estou a morrer. Tem de ser assim. Não venhas ver uma coisa dessas que não vale a pena.
Antoine de Saint-Exupéry - O Principezinho

2 comentários:

  1. K., na verdade era "dois sóis, um só sem ti", da banda sonora do Tarzan ;) "Tenta ser aquilo em que acreditas, dois sóis, um só sem ti, deixa-te ir, p'lo coração, tu vais saber seguir".

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  2. Eu cantei sempre "dois sóis, um só sem sentido" xD E como já estou muito velho para desaprender, vou continuar a cantar assim ;P

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