terça-feira, 16 de agosto de 2011

"Na Nova Zelândia está um grande nevão"

A minha mãe disse aquelas palavras sem saber o impacto que isso teria em mim, tal como a Mrs Darling desconhecia o que aconteceria aos seus filhos ao sair de casa para ir ao nº 27: "Na Nova Zelândia está um grande nevão."

As tuas palavras ecoaram na minha cabeça, tal e qual como as tinhas murmurado: "Voltaremos a encontrar-nos. Quando o verde ficar branco."

Nunca percebi exactamente como o consegues. Lanças um Portus no ar que me envolve para que eu vá ter contigo? Colocaste um tabu para que eu Desapareça e Apareça à tua beira? Ou tudo será um sonho?

"Diz-me, o que é?"

Num segundo eu estava ali, agora estou aqui.

"Nova Zelândia? Porquê? Foi por eu ter ficado deslumbrado com as paisagens das filmagens do Senhor dos Anéis? Foi porque te lembraste que eu disse que gostava de ir até lá para ouvir falar da Paikea? Porque ficas sempre por meias palavras? Eu sempre te disse que não era bom entendedor. Os meus neurónios não enviam neurotransmissores ao neurónio seguinte. Enviam a tudo o que está à volta. E à conta disso, eu crio mil cenários para as tuas palavras."

"Vamos caminhar" foi a tua resposta. A maneira tranquila com que falaste fez-me corar de vergonha.

Não me deste a mão e eu estranhei. Costumas dar-me a mão e enquanto andamos vais passando o teu polegar no meu pulso. Isso faz cócegas, mas eu nunca to disse. Receio que deixes de o fazer por saberes que as cócegas são torturas para mim (acho que na verdade esta não é a razão. Tu sabes que só sou torturado quando as cócegas me são feitas debaixo do braço ou no tronco. Tenho simplesmente medo de que ao falar tu pares momentaneamente aquele gesto e percebas que a minha frequência de pulso aumenta quando me tocas). Quis perguntar-te o que se  passava, mas tu ias à minha frente e eu acelerei o passo.

"Tenho frio. Não sabia que vinha logo para aqui, senão teria trazido uma  camisola" exclamei, com um certo azedume.

"Eu não tenho". (como é que podias não ter se estavas em tronco nu?)

Continuavas a andar. E o mais estranho é que não havia pegadas tuas. Olhei para trás. Só via um conjunto de pegadas, as minhas, mas as tuas não estavam lá. Tu enterravas os pés na neve - eu via o branco aparecer entre os teus dedos morenos - e no entanto quando os levantavas, não havia vestígios de que tivesses sequer arrastado neve.

Tudo aquilo era anormal. Mas que diabo se estava a passar? Corri para ti e quando estava suficientemente perto, estendi o meu braço para ti. Estavas frio como seria de esperar (e dizias tu que não tinhas frio) mas no entanto não deste a entender que tinhas sentido o meu toque.
Deste um passo em frente mas eu já não aguentava mais. Atirei-me para ti, enrolei os meus braços à volta da tua cinta e rebolamos pela neve. Não ofereceste resistência. Mas que diabos? No entanto os teus olhos não estavam escuros de curiosidade e tranquilidade. Estavam escuros de medo e o medo apoderou-se de mim.

Reuni as forças que ainda tinha e esmorrei-te. Foi a coisa que mais me custou fazer, mas parecia-me que era o que tinha de fazer. O meu sangue tingiu o branco. O solo fora maculado e no entanto tu continuavas perfeito e imaculado aos meus olhos.

"Mas que se passa? Porque não gritas, porque não tremes de frio, porque não sangras, porque me estás a fazer isto? Ainda não percebeste que me estás a assustar?"

"Pensei que soubesses." O medo invadia a tua cara. O teu coração não batia debaixo da minha mão. Como era possível?

"O quê? Que eras um idiota, um imbecil, um fantasma, um sonho?"

"Sim."

Não sei se me meteram neve pela boca abaixo (provavelmente não), mas foi isso que senti. Isso e uma grande pancada na cabeça. Mas a pancada na cabeça foi provocada pelas palavras que me passavam pela cabeça numa tentativa de perceber a tua resposta. "Idiota"? Não, isso também eu o sou e sempre nos rimos disso quando nos tentávamos equilibrar nas traves de madeira que ficavam atrás da porta do quintal e que nos levavam à praia. "Imbecil" era uma das tuas palavras preferidas e dizias que o eras quando te sentias culpado de alguma coisa. "Fantasma"? Isso assustou-me, mas o Ron ensinou-me que os fantasmas são transparentes ("e os Inferi são corpos sem vida") e tu não o eras. Seria possível então que fosses... "um sonho?"

"Sim. Pensavas o quê? Que eu era um romance do Nicholas Sparks? Não, nesses morre sempre alguém e aqui não morreu ninguém. Um romance da Jane Austen? Não, aí as coisas começavam um bocadinho para o torto e depois endireitavam-se. Connosco não foi assim. Não foi, porque eu sou um sonho. Fui o que tu pensaste, o que quiseste que eu fosse. Mas depois quebraste as regras e desejaste que eu fosse real. Não se podem quebrar as regras, K."

"Mas então e agora? Não posso voltar a adormecer e ter outro sonho?"

"Poder podes, mas eu continuarei a ser um sonho, só que desta vez terás noção disso e serás torturado de cada vez que eu aparecer e a realidade se apossar de ti no sonho. Eu voltarei se assim o desejardes, quando o verde ficar branco, mesmo quando o Sol nascer em oeste e se puser a este. Mas se quiseres, poderei voltar mais vezes, sem te atormentar."

"Como??"

"É impossível dizê-lo agora. Talvez tenha outra cara. Outro corpo. Outra voz. Outro coração. Outro nome. Na altura saberás. Espera. Espera como esperávamos pelos pirilampos que iluminavam o jardim nas noites de Verão."

"Mas..."

"Num outro sonho talvez. Agora são 4h. E tu já acord..."

E agora que estou acordado, quero gritar-te isto, mas a tua voz, sempre mais melodiosa do que a minha, sobrepõem-se e canta-me uma outra música. E eu dou por mim a acompanhar-te em alguns versos...

Sleep don't weep
My sweet love
Your face it's all wet
And your day was rough
So do what you must do
To find yourself
Wear another shoe
Paint my shelf
There's times that I was broke
When you stood strong
I think I've found a place
Where I …

Sleep don't weep
My sweet love
Your face it's all wet
'Cause our days were rough
So do what you must do
To fill that hole
Wear another shoe
To comfort the soul
There's times that I was broke
When you stood strong
I think I've found a place
Where I feel I will…


Sleep don't weep
My sweet love
My face it's all wet
'Cause my day was rough
So do what you must do
To find yourself
Wear another shoe
Paint my shelf
There's times that I was broke
When you stood strong
I hope I find a place
Where I feel I belong

Sleep don't weep
My sweet love
My face it's all wet
'Cause my day was rough.

Don't weep, my sweet love
My face it's all wet
'Cause my days are rough

4 comentários:

  1. "É impossível dizê-lo agora. Talvez tenha outra cara. Outro corpo. Outra voz. Outro coração. Outro nome. Na altura saberás. Espera. Espera como esperávamos pelos pirilampos que iluminavam o jardim nas noites de Verão."

    Ele não disse mas eu vou tomar a liberdade de acrescentar e espero que me perdoes :
    "Espera. Um dia estarei ao teu lado, juntos estenderemos as mãos. E a passagem secreta? Para quê? Tenho te ao meu lado, junto a um espelho que tão bem prova o quanto é real. 4? Não somos 2 . Eu e tu. Os sonhos são possiveis. Espera."

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  2. Acho que ele era capaz de dizer isso. Mas talvez soubesse que eu ficaria demasiado esperançoso se o tivesse dito...

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  3. «To find yourself
    Wear another shoe»

    (Whenever you need, ask for my 'sapatilhas'. I guess they will fit you.)

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  4. Obrigado Weasley. Se calhar cabiam dois pés meus xD

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