segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Lâmpadas fundidas

"Quando o leite aquece mais do que era suposto, as bolinhas Nesquick ficam pastosas. E enquanto vou adicionando leite frio para não queimar a língua, os cerais vão saindo da caneca e tu aproveitas logo para os comer. Assim não dá. Assim nenhum dos dois lancha em condições.
Depois, quando nos sentamos a comer, passam minutos até que um de nós se levante para lavar a caneca. É nesses minutos que uma formiga sobe a mesa e eu ofereço-lhe a minha mão (aquela mesma onde podia estar um peixe) e o meu braço para ela passear. Tu sorris, achas piada a que eu faça isso.
Quando a formiga sai, queres tu assumir o lugar dela. E assim vais descobrindo os sinais que tenho no braço. No outro dia disseste-me quantos eram, mas eu esqueci-me..."


Por agora deixaste-me sozinho, a ler aquelas folhas onduladas do diário que deixamos cair durante um dos muitos passeios à chuva, mas não sem antes me fazeres uma promessa.

"Voltaremos a encontrar-nos. Quando o verde ficar branco."


Quando fui agora à rua, para ir até à praia ver o céu fogo como me tinhas aconselhado, contei as lâmpadas fundidas (que por sinal eram 4) e lembrei-me de alguém hoje dizer:

"Quando se fecha uma porta, abre-se uma janela"

Então voltei para casa a correr e abri a janela e deixei a porta aberta.
Quando o Peter Pan sai da Terra do Nunca, instala-se lá o nevoeiro. Talvez tu sejas à espécie de um Peter Pan. Talvez "quando o verde ficar branco" não se refira a neve aqui. Talvez a tua vinda para aqui faça com que o verde que agora há no sítio onde estás se transforme em branco (e o meu branco fica verde). Se assim for, tens a janela aberta para entrares quando quiseres.
Espera. Não, tu não és o Peter Pan porque ele esquecia-se de tudo (pobre Wendy, tinha de estar sempre a dizer-lhe quem ela era) e tu não és assim. Se fosses um Peter Pan, não te lembrarias de mim por esta altura e sei que isso não é verdade. Sabes quem eu sou e cumprirás a tua promessa.

Não tenho cabelo para te estender à janela qual Rapunzel. Mas tens sempre a porta aberta. Ainda é a mesma, mas desta vez não terás de tocar à campainha. Ela estará aberta e tu já conheces o que há do outro lado.

Do outro lado só desconhecemos o espelho... Quando estendo a minha mão para ele, não é a palma da tua mão que envolve a minha. A tua vejo a uns centímetros ao meu lado, porque a estendemos os dois simultaneamente na esperança de encontrarmos uma passagem secreta.


Fico à espera da neve...

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