Depois de tanto escrever, poder-se-ia pensar que a mão estava quente. Não, não estava. Era, aliás, a única parte de mim que estava fria. Talvez fosse pelo contacto com a superfície metálica que também deixou a polpa do dedo dorida. Estranhei a caneta quando lhe peguei, mas era escusada aquela sensação de desconforto.
No final folheei as páginas para lhes ver as palavras azuis e vermelhas que com algum cuidado tinha escrito. Minto. Não fico a admirar a minha letra como dizem que faço. Folhei o caderno para ouvir as folhas a estalarem e para sentir o relevo que a ponta da caneta deixou. Lá fora chove e também ouço o barulho das gotas de água a baterem no vidro da janela. Gostava de estar ali a falar com vento.
Fui aquecer leite e misturei-lhe chocolate e canela. Parece que só assim o frasco da canela vai ficando mais vazio. Toda a combinação estava boa, mas fiquei baralhado. O que deveria acabar primeiro, o leite ou as bolachas? Qual dos dois o melhor para ganhar o prémio de perdurar mais tempo?
Foram as bolachas. O sabor a limão cativou-me.
As mãos aqueceram, ficaram os pés frios. Tirei o pé esquerdo da pantufa e meti-o na outra pantufa junto com o outro pé. Serão siameses até ficaram à mesma temperatura. Parece-me justo. Um transferirá energia para o outro segundo as Leis da Termodinâmica. Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.
E agora nada mais me cativa e fiquei irritado.
Relembrando um certo dia, quis transformar a falta de contacto que havia entre nós em palavras que voam não no bico de uma coruja das torres, mas pelo telemóvel. Fi-lo, mas não vou prolongar isso a falar do tempo, mesmo que depois me digam que estou diferente. Enquanto o sabor de limão permanecer nas papilas, regressarei ao mato.
Não gosto que digam que estou diferente. Em parte porque não concordo, em parte porque receio que isso pode ter acontecido e eu não me apercebi...
«E agora nada mais me cativa e fiquei irritado.»
ResponderEliminarNão sei o que Lavoisier pensaria disso, mas, se fosse a raposa, acabaria por descobrir que o sussurro da distância se assemelhava ao barulho das gotas de água na janela.
E, depois, as palavras parecer-se-iam com a textura do orvalho numa manhã de outubro, quando o outono se veste de cobre e mel. Ou talvez - porque as raposas costumam ser caprichosas - o oceano lhe lembrasse uma pantufa!...
Ainda muito tenho a aprender com a raposa. Por vezes (há alturas em que muitas vezes) as palavras, e as pessoas, apenas se assemelham a enormes pontos de interrogação...
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