quinta-feira, 19 de abril de 2012

A cidade está deserta. Só eu permaneço vivo.

Talvez por pouco.

Um dia destes morro asfixiado pelo fio dos auscultadores do aparelho de música enquanto tento não morrer de frio. É que torno o vestir-me num jogo de destreza e perícia em que viro a mochila para a frente, abro-a, tiro a camisola, fecho a mochila, tiro os óculos, visto a camisola, meto os óculos, coloco a mochila novamente às costas. As regras são simples: nunca parar e manter sempre um auscultador num ouvido. Quando o fio se enrola no pescoço, a coisa tornar-se complicada.

Não morrerei hoje.

Hoje encontrei uma pétala de rosa no chão. Encarnada, como o sangue que julgo correr-me debaixo da pele. Quando a vi desliguei a música para que não houvesse interferência no processamento do estímulo sensorial. Cheirei-a até ela perder o cheiro. Cheirei-a para que a memória sensorial passasse a memória a curto prazo. Cheirei-a porque era bom ter companhia no frio.

4 comentários:

  1. Tb adoro cheirar rosas. Às vezes passeio pelo jardim só para cheira-las :)

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  2. É muito bom ter companhia. Principalmente no frio mas, creio, em qualquer situação... se a companhia for boa :)
    Uma rosa... adoro cheirá-la.
    Gostei muito do teu escrito. Abraço amigo.

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  3. Lembra-te que não podes morrer até partilharmos uma lata de leite condensado...!

    Mantém-te quente e vivo :)

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