Sabendo que eu gosto de chocolate, é frequente as pessoas oferecerem-mo. Penso que é uma tentativa dissimulada de me engordarem, mas até à data não tem tido muito sucesso. O intervalo de confiança do meu peso é pequeno. Por vezes os meus conhecidos até se aliam e, recorrendo à expressão “fico chateado se não comeres”, tentam provocar um efeito exponencial, mas que eu consigo contornar bem com promessas de que irei guardar para saborear melhor.
Às vezes também se aliam para me fazerem sair de casa, mas se saio nunca é obrigado. Posso ter de pedir autorização a mim mesmo e dar-me satisfações, mas vou pelos meus pés. Saí um dia destes e encontrei mais pessoas do que aquelas que estava à espera.
Começou por aparecer este rapaz. Sim, aquele que recriou uma cena de um filme romântico. Se eu pensava que depois daquela vez não o veria mais porque fenómenos estranhos à rotina são coisas raras, estava enganado. Vi-lo já três vezes e na segunda houve troca de palavras. Não sei onde tinha a cabeça [pensava que ela estava no cimo do tronco e com as ligações habituais que, não sendo perfeitas, sempre me dão um grau de imbecilidade aceitável, mas pelos vistos não estava] para ter tomado a iniciativa e quando me apercebi disso tratei de compor a situação para ser poupado a futuros sentimentos de culpa e arrependimento. Lá lhe dei o discurso de que calças em fogo são situações que eu não aprecio, que eu não sou bombeiro e que o meu fascínio por pirotecnia resume-se ao fogo-de-artifício e ao acender inofensivo de fósforos. Ele deve ter percebido que eu gostava mais da chuva e que preferia molhar-me sozinho a queimar-me acompanhado e por isso deixou de comunicar.
(Se há alguém que tenha sentido uma pontada de inveja quando eu descrevi o primeiro encontro já pode digerir esse sentimento porque não há fundamento para que ele exista)
Depois da segunda intersecção pensei que não haveria mais nenhum cruzamento. O meu discurso tinha sido muito semelhante às ogivas nucleares que alteram a trajectória dos asteróides para impedir que haja fenómenos de colisão. Houve no entanto um terceiro encontro no Metro, mas não houve colisão. Ele entrou, viu-me, retrocedeu e sentou-se num banco afastado do meu. [Eu sou um balde de água fria, tenham cuidado!] Saímos na mesma paragem e passei junto a ele, mas não olhei para ele. Ele andava devagar, não conseguia acompanhar a minha passada.
Depois fui ter com a pessoa com quem era suposto sair. Essa ia precavida de que eu posso ser um bicho pelo que não me evitou. Só o fez (ou desejou) quando eu passei por cima das condutas de ar do Metro que abrem no meio da rua ou quando decidi que iria pela rua larga em vez de pela rua estreita ou quando eu quis sair pela porta do lado onde estava muita gente. Parece que não sou assim tão horrendo. Mas o ele conhecer-me pode também dar azo a perguntas cuja resposta pode ser complicada de dar e perceber...
Ainda encontrei um nenuco que afinal é quase da minha altura. Foi uma coincidência muito grande estarmos no mesmo sítio à mesma hora. Tenho de rever a periodicidade de ocorrência de fenómenos pouco habituais. Ou talvez não. Mais tarde julguei erradamente saber quem era o rapaz do cabelo azul, por isso para já vou apenas considerar a existência de excepções à regra.
Já quase de regresso a casa deparei-me com um par de sapatos no chão. Estavam usados, mas não gastos. Eram verdes, femininos, rasos. Interroguei-me acerca do que teria acontecido para terem sido abandonados assim no meio da rua e lembrei-me desta música:
I took my lucky break and I broke it in two
Put on my worried shoes
My worried shoes
And my shoes took me so many miles and they never wore out
My worried shoes
My worried shoes
oo oo oo oo oo oo oo oo oo oo
My worried shoes
I made a mistake and I never forgot
I tied knots in the laces of
My worried shoes
And with every step that I'd take I'd remember my mistake
As I marched further and further away
In my worried shoes
oo oo oo oo oo oo oo oo oo oo
My worried shoes
And my shoes took me down a crooked path
Away from all welcome mats
My worried shoes
And then one day I looked around and I found the sun shining down
And I took off my worried shoes
E soube agora que na versão original da música há mais versos:
And my feet broke free
I didn't need to wear
Then I knew the difference between worrying and caring
'Cause I've got a lot of walking to do
And I don't want to wear
My worried shoes
Pois… Eu não consigo deixar os pensamentos sossegados durante muito tempo. Eles voltam sempre e fazem-me companhia. Às vezes é difícil lidar com eles. Por estar acompanhado por eles às vezes não procuro outras companhias. Ou por medo. Por falta de vontade. Por falta de necessidade. Por idiotice minha. Pois... É por isso que muitas vezes preciso do empurrão para sair. Mas volto a dizê-lo: não o faço obrigado. Nem finjo gostar.
Não me digas que essa pessoa tinha medo das condutas do metro?! Que medricas...
ResponderEliminarTenho a certeza que essa pessoa sabe que não foste obrigado nem fingiste gostar. Ela sabe que tu gostaste :)
Atitude é tudo...admiro e partilho do teu prisma de visão. Quando nos forçam a algo afastam-nos não só do nosso livre arbítrio, mas acima de tudo de nós mesmos. Louvável a tua atitude, louvável...
ResponderEliminarSei que é um cliché mas acima de tu, sê tu mesmo. Um dos lemas de vida mais complicados de seguir.
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