sábado, 10 de setembro de 2011

Daqui a uns anos, todos os meus dias serão assim


Não sendo eu um insecto, há algo nas luzes que me fascina. Adoro viajar de carro à noite, com a cara colada ao vidro para ver as luzes das cidades, das aldeias, das fábricas e até mesmo dos candeeiros ao longo da auto-estrada. E quando as deixo de ver, rodo a cabeça o máximo que consigo para que possa continuar a ver as pintas luminosas, ainda que fique com dores de pescoço. Às vezes, a Lua dá-me o prazer de a poder ver também. Não há mais nada que se iguale a ela no escuro da noite, é ela a senhora da noite.

Ao entrar na aldeia, o céu é perfurado pelos pinheiros. Não jorra sangue, apenas uma ténue luz que salta de agulha em agulha, projectando sombras esquisitas no chão de terra batida - algumas chegam mesmo a ser parecidas com monstros que flutuam ao sabor do vento e o estrilar dos grilos é o som que eles fazem para assustar as crianças que já deviam estar a dormir.

O ar cheira a madeira humedecida e a todo o tipo de chás. Junto a mim, o chocolate quente acabado de fazer arrefece e o vapor sobe em espiral, para logo se deixar de ver. Tentei fazer com ele uma nuvem, mas ela desfazia-se mal entrava em contacto com a pele. O pau de canela não é só a colher que dança nos meus dedos, mas é também a palhinha por onde vou bebendo. O bolo com creme já desapareceu há muito do prato. Disse à minha mãe que os espíritos do campo tinham entrado na casa. A mãe riu-se e disse que eu tinha de deixar de ser tão guloso.

Se calhar tenho, mas ainda vou procurar o Totoro e o Cabeça de Nabo. O Totoro vai ser a minha almofada esta noite. Quanto ao Cabeça de Nabo, ele não há-de querer um beijo meu para se transformar no Príncipe que é, pelo que vou deixá-lo a passear. Se amanhã estiver por perto, vou pedir-lhe que me leve até ao lago.

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