Os jardins estão vazios. Não se ouvem os gritos das crianças a correrem de um lado para o outro nem há casalinhos a passearem de mãos dadas, despreocupados com tudo o que se desenrola à volta deles (a única excepção é para outros casalinhos que possam estar por perto. Há sempre competição nessas situações). Na tarde deste mesmo dia viam-se pessoas a jogar xadrez numa mesa com um tampo aos quadrados. Agora só me vejo a mim como peão e a minha sombra como torre. Não há rei e eu não poderei pôr o carapuço do casaco na cabeça e declarar-me rei dos jardins porque senão a torre faria xeque-mate independentemente da posição que eu tomasse. Já nem cavalos há. Sei-o porque não senti as linhas do eléctrico a vibrarem nem ouvi o relincho metâlico. Está tudo calmo, até as árvores pouco se mexem. Insuflei os pulmões para dar vida, mas depois desisti. Há mais vida para além daquela que eu vejo.
Sentei-me num dos vários bancos e esvaziei os pulmões. Assisti à dança do vapor de água e bati palmas silenciosas no final - não queria acordar os pássaros porque eles estão cansados. Hoje estive a vê-los a voar quando me pus à janela. As gaivotas iam à frente e seguiam-se as pombas que na verdade queriam ser gaivotas (eu acho que sim porque faziam tudo o que as gaivotas faziam. Se a gaivota virava para a esquerda, lá ia a pomba atrás, se a gaivota grasnava, lá tentava a pomba fazer igual). Eu queria ser pomba e poder cortar os céus e por isso abri os braços. É claro que não me podia atirar da janela porque os braços não iam funcionar como asas. Parece que tenho de aprender a fazer o pino. Assim sempre parece que tenho os pés apoiados numa nuvem.
adoro estas frases:
ResponderEliminar"Parece que tenho de aprender a fazer o pino. Assim sempre parece que tenho os pés apoiados numa nuvem."
;)
Funcionou a publicidade. Gosto da escrita por estes lados. Estás oficialmente adicionado à minha lista de ligações.
ResponderEliminarOh, eu não fiz publicidade! :P Obrigado pelo elogio ;)
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