quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Metas

Parece-me que muita gente vive o dia-a-dia tendo por base um lema semelhante a "faça corresponder a cada idade um acontecimento". Estabelecer algo que queremos atingir pode ser bom e há, de facto, situações que marcam uma determinada etapa, mas a partir de uma certa idade (logo por sinal a minha) parece-me que os objectivos se tornam um pouco redutores e limitantes.

Quando pequenos, os 5 anos parecem ser a idade perfeita. Finalmente uma mão cheia! O processo de esticar dedos quando nos perguntam "quantos anos tens?" torna-se mais fácil porque não há cá confusões. Até ao dar uma estalada a alguém não erramos na idade! Os planos para o futuro são bastante simples: comer bollycaus a tempo inteiro e coleccionar os cromos. Espera, não é assim tão simples. De vez em quando, um carrinho ou um Action Man mete-se no caminho e escolher qual guardar é complicado. É o princípio do pensamento "nunca estamos satisfeitos com nada".

Com os 6 vem a ida para a escola primária, um dos momentos mais importantes da primeira década de vida. Finalmente aprender a ler, a escrever e a fazer contas como a gente crescida! Há os trabalhos de casa, considerados fixes nesta altura, o desejo de chegar ao meio do caderno ou acabar a tinta da esferográfica. As brincadeiras do recreio, as visitas de estudo, o dia mundial da criança! Nada parece impossível, o mundo é todo nosso.

Depois os 6, 7, 8, 9 anos passam de moda e o fixolas é ter 10 para mudar de escola e já ter dois dígitos de idade. Os TPC passam para a categoria do desinteressante e jogar à bola e pentear cabelos passam a ser os projectos de vida. Tudo o que está abaixo parece demasiado infantil, mas a verdade é que os Pokémons ainda andam no bolso das calças. Os anos vão passando e ter uma dezena ou dúzia de anos deixa de ser especial. Bom mesmo é ter os 16.

Com os 16 começamos já a fazer perguntas para além de "o que é que vai ser o jantar?". Compreendemos, por fim, que afinal as pessoas sempre tinham razão quando diziam que éramos insuportáveis na idade da parvalheira. As amizades ganham outra importâncias, o que passa por incluir mais pessoas do sexo oposto no grupo de amigos. Os temas de conversa vão mudando, percebemos que não somos o centro do mundo e que temos muito a aprender com os outros, desenvolvemos relações como nunca antes! E claro, há também os namoros. A maior parte não consegue durar o secundário todo, mas os desgostos amorosos não são tão graves como virão a ser, talvez porque a imaturidade misturou sentimentos e nunca chegámos a gostar verdadeiramente da outra pessoa, talvez porque a imaturidade nos faz acreditar que não há tempo para pensar em sentimentos.

Ter 16 anos é quase épico, mas o direito a consumir e a comprar bebidas alcoólicas em nada se compara à liberdade dos 18 anos. Por essa altura gozamos tudo a que temos direito, mas apenas parte daquilo que somos. Apesar de tudo, ainda somos bem capazes de revelar uma grande imaturidade quando fazemos não aquilo que realmente queremos e que traduz aquilo que somos, mas aquilo que toda a gente faz. Talvez por isso se diga que os 18 anos são a idade dos excessos. Os mais velhos são só velhos, que sabem eles sobre ser-se jovem? Negamos que a maioridade vem também acompanhada de mais responsabilidades.
Parece-me que no entanto é a partir daí que a variabilidade de personalidades aumenta. Já que vivemos mais de de 20% da nossa vida até faz sentido que assim seja. Decisões começam a ser feitas para que sejamos capazes de viver os restantes 80% mais perto daquilo que vamos idealizando. Se há quem procure seguir estudos, há quem opte por arranjar um emprego para tomar rédeas da sua vida mais cedo. Se há quem goste de farra, há quem seja mais pacato. Se há quem tenha encontrado um grande amor, se há quem goste de experimentar vários lábios por noite, há quem goste de estar sozinho, há quem goste de se queixar que está sozinho.
Parece-me que um dos marcos para os 18-20 anos é arranjar um namorado ou namorada. Isso é visto um pouco como a cura para todos os males e a não realização pode suscitar vários desencantos. Embora desvalorizem os filmes que viram quando pequenos, parece-me que querem acreditar que um namoro nesta idade já representará o "viveram felizes para sempre". Isso acaba por influenciar a atitude que se tem no dia-a-dia. Será que a necessidade de estabelecermos uma relação é assim tão grande? Seremos assim tão incapazes de usufruir mais da nossa própria companhia? Será que se torna impossível conhecermo-nos melhor sozinhos?

Dizem  que vida há só uma. Dependendo daquilo em que acreditemos, poderá ou não haver uma só vida, mas isso não implica que tenha de haver pressas. Tendo por base a esperança média de vida, ainda temos 80% de vida pela frente. Porque haveremos de querer tudo ao mesmo tempo? Não estou a negar que estar acompanhado possa ser bom. Estou a dizer que fazer birras "quero estar acompanhado!" não é bom. 

Tenho 19 anos e às vezes sinto-me demasiado diferente da grande maioria das pessoas que me rodeia na faculdade. Não gosto de farra e já faço muita pouca birra. Dizem que me conformei com a solidão, que penso como um velho e que isso não é bom. Não consigo concordar com isso. Não totalmente. É certo que não ser capaz de me achar semelhante às pessoas da minha idade contribui para as minhas fracas capacidades de socialização e isso não é bom porque cria uma distância cada vez maior e, um dia, poderei ser incapaz de contornar a situação. No entanto, de momento julgo-me ser capaz de apreciar melhor as pequenas coisas do dia-a-dia, como as pequenas gotas de chuva que hoje caem e que eu vejo como o ambiente perfeito para ir dar um passeio até ao parque da cidade. A minha companhia não me é assim tão nefasta e estar sozinho não me deprime assim tanto. Não para já.

Estar numa relação não é o meu objectivo dos 19 anos e por isso acabo por me concentrar mais no curso. Ele não será o meu final feliz, mas será um acontecimento importante. Até aqui sabia que depois da escola primária vinha o ensino básico e depois o secundário e o superior. O que para lá disso é-me desconhecido. É como se o mundo passasse a ser novamente plano. O curso dar-lhe-á algum sentido (assim espero). Se houver alguém com quem desbravar os continentes por descobrir e que me ajude a nomear as estrelas e os planetas que for descobrindo, será melhor. Talvez me torne no Sol de alguém e esse alguém se torne o meu Sol. Talvez assim a teoria heliocêntrica faça mais sentido.
(que lamechas, vou parar por aqui)

12 comentários:

  1. Paraste de escrever no momento certo. Espero que daqui por outros 19 anos escrevas a segunda parte, que acredito que seja bem recheada de sentimentos intensos e emoções quase indescritíveis como todas essas que passaste até hoje.

    Não te conheço, não sei quem será e isso muito menos importa.

    Importa isto: na minha perspectiva, teres a total consciência e noção do que és, de quem és neste momento e o que pretendes, é-te o suficiente para continuares num bom caminho. A tua escrita e a tua ordem de ideias comprova isso. ;)

    Parabéns pela pessoa que és.

    Um abraço e tudo de bom para ti! ;)

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    1. Daqui a 19 anos voltarei para actualizar as metas. Ser fonte de hélio para uma estrela especial será algo fascinante, não o nego, mas de momento sou apenas o reservatório da glucose dos chocolates que como. Ou das pipocas.

      Ainda não tenho total consciência e noção de quem sou. Vou sabendo-o aos poucos, a cada dia que passa. Eventualmente nalgum fico com dúvidas e retrocedo algumas casas como num jogo, mas depois sigo em frente. As dúvidas não são más, às vezes são elas que ajudam a tecer o caminho à frente.

      Não costumo gostar que as pessoas me elogiem porque coro, fico sem saber o que responder e não me considero merecedor das palavras que me são dirigidas. O teu elogio foi bastante forte e estou há 10 minutos a responder ao teu comentário. Não sei o que dizer... Muito obrigado :D

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  2. Concordo com a primeira parte toda. Aquilo que disseste e bem verdade...
    Quanto ao teu caso pessoal, nao sei mesmo ate que ponto isso é saudável... essa solidao toda... ainda para mais, gostando. Nao tens que viver tudo os que as pessoas da tua idade vivem, nao concordo com isso, mas nao podes querer viver muito mais alem da tua idade. Vais perder coisas, e mais tarde vais sentir falta delas, i guess... vejo muito isso no meu irmao.
    Espero sinceramente que encontres o teu Sol! :)

    P.S. Gosto mais deste fundo ;)

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    1. Não vivo a pensar na idade que tenho, vivo com base naquilo que sou. Se me limitasse aos 19 anos, teria de abolir alguns comportamentos considerados infantis por algumas pessoas, mas não estou disposto a fazer isso. Acho que muita gente fez isso: algures numa noite deixou a magia de criança debaixo da almofada e nunca mais a encontrou. Pretendo manter a minha durante todo o tempo que conseguir. É claro que já não sou a mesma criança que era, cresci. Ao longo desse crescimento, fui gostando de outras coisas. Não sinto que viva para além da minha idade. Não me impeço de gostar daquilo que as pessoas da minha idade gostam, simplesmente não gosto de tudo ou pelo menos não da mesma maneira.
      Talvez um dia venha a achar que perdi coisas, talvez não. Só o tempo o dirá. Se mudasse a minha maneira de ser agora a pensar nessa possibilidade, os resultados poderiam ser maus. Viver de acordo com aquilo que sinto parece-me ser o melhor.

      Eu também gosto mais deste fundo. E se algum dia encontrar o meu Sol, tentarei inserir um Sol na imagem ;)

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  3. Fui lendo e dei por mim a pensar em Neil Armstrong - sim, esse mesmo, aquele que falou num pequeno passo para o homem!...

    Depois, quando cheguei ao fim, não pude deixar de me interrogar: será que também me tornei lamechas e não dei por isso? Pensei em parar por ali, mas como gosto de ser teimoso, decidi arriscar.

    Que diferença entre o K. de março de 2011 e este que, aparentemente, já adquiriu um considerável jogo de cintura face àquilo a que chamava imaturidade!... Não foi um pequeno passo, mas, antes, uma enorme distância percorrida.

    As diferenças - comportamentais sobretudo - que possam existir em relação às pessoas da tua idade, talvez não sejam mais do que uma espécie de optimização da tua forma de entender o mundo que te rodeia. Desde que não cedas à tentação de te julgar melhor dos que os outros, ou que não cometas a palermice de te pensares inferior. És bem capaz de estar em pleno processo de materialização do que pretendes que venha a ser a tua vida. Consciente dos passos que dás, mas suficientemente atento para reparares na menina que encontraste no Metro, ou naquele menino que "dialogava" com a balança!...

    Crescer não tem, forçosamente, que ser um processo negativo, desde que não abandones os amigos que costumavas inventar: o Peter Pan ou o Harry Potter.

    É bem provável que, há um ano, não te imaginasses a escrever um texto destes. Deixa, então, que o caminho se faça, mas não deixes que façam o teu caminho.

    Ah!... O blogue, assim, está mais parecido com este novo K.

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    1. A tua teimosia e o teres arriscado fez com que a caixa dos comentários se rendesse a teus pés. Parece que já deste a volta à situação de há uma semana.

      O K. de Março de 2011 e o K. de Janeiro de 2012 são a mesma pessoa e no entanto às vezes parecem-me pessoas diferentes. Foram pequenos passos que no final percorreram uma distância enorme. A propósito disso lembrei-me desta citação:
      "As crianças nunca deviam ser enviadas para a cama. Acordam sempre um dia mais velhas e antes que nos apercebamos, já estão crescidas" (do filme «À Procura da Terra do Nunca»)

      Não me julgo superior às pessoas da minha idade nem inferior. Há diferenças entre nós e por me dizerem que eu é que sou diferente, não eles, há por vezes pensamentos palermas nos quais me vejo com algum problema de identidade social. Por vezes chego a perguntar-me se não seria mais fácil se tentasse ser mais parecido com eles e deixasse de ser o esquisitinho. Acabo por perceber que ser outro que não eu não é aquilo que pretendo, nem ajudaria em nada. As circunstâncias alteram a realidade, mas a realidade também altera as circunstâncias. Se fosse outro que não eu, poderia nunca ter conhecido a Sara, poderia nunca ter vindo a conhecer-me como agora conheço.

      Percebo agora que crescer não é sinónimo de processo negativo. À medida que crescemos, temos sempre a possibilidade de escolher como queremos que isso aconteça. Isso sim determinará se haverá evolução ou não. Não temos de crescer e guardar a criança ou jovem que fomos numa caixa e guardá-la no sótão. Havia tanta magia nisso, fomos tão contentes com eles! Fechar a janela ao Peter será negar que aprendi muito com o menino que tinha medo de crescer, será negar que alguma vez cresci.

      Sim, há um ano não me imaginava a escrever um texto destes. Pensando nas birras que fiz ao início, percebo que a não realização delas não é mau. Segui outros caminhos e cheguei a um resultado igual ou melhor. Conheci-me a mim. Aprendi comigo.

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  4. A solidão não é o caminho. Digo-te.
    E não deves colocar as coisas dessa forma, de ser ou não a altura de teres uma relação.
    Disseram-me há quase um ano que eu deveria estar numa fase de solidão a refletir na vida, mas não é isso que tenho agora e acho que estou bem.

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    1. Não acho que me impossibilito de gostar de alguém (há alguma mentira nesta frase, mas não interfere com o que pretendo afirmar com ela porque são outras circunstâncias), apenas não encontrei ninguém que brilhasse mais do que as estrelas lá em cima. Tinha duas possibilidades: deprimir (como vejo alguns colegas e colegas fazerem) ou aprender a usufruir da minha companhia. Optei pela segunda opção...

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  5. Falaste de algo em que penso várias vezes, sendo um ponto em que assenta a minha maneira de viver. A solidão... ou o estar sozinho. Não sou uma pessoa solitária. Não estou normalmente sozinho. Tenho uma relação. Saio de casa, como, bebo, berro, canto e danço. Mas, ao contrário de muitas pessoas, não faço isto para não estar sozinho, mas sim porque gosto de o fazer. Não namoro para não estar sozinho, mas sim porque quero estar com aquela pessoa, além de estar comigo. Adoro os meus momentos privados. Adoro conviver só comigo, e isso é algo que a muita gente custa compreender.
    Como certamente já viste no meu blog, eu não acredito em relações em que uma pessoa completa a outra. Cada um tem que ser completo por si próprio e é esse "ser completo" que distingue uma pessoa que está sozinha de uma que vive em solidão.
    Os tempos, os amigos, a sociedade, os pais, a televisão... tudo nos diz que esta é a hora de "assentar". É boa horinha para arranjar parceiro. Toda a gente namora, toda a gente casa, toda a gente vive com toda a gente... mas muita gente esquece-se de viver consigo própria.
    Talvez essa tua diferença te leve a não contornares a situação... mas talvez nem interesse contornar.

    E é melhor calar-me por aqui, antes que te supere o tamanho do post. Porque se for a falar do apreciar das pequenas coisas... temos conversa até daqui a uns anos...

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  6. Eu concordo contigo. As pessoas acabam por projectar numa relação a realização delas próprias e eu não concordo inteiramente com isso. A existência de um nós pressupõe a existência de um eu e tu, duas pessoas, cada uma com a sua identidade. Penso que podemos ser completos individualmente, mas em conjunto a vida é capaz de adquirir outro significado, outro sentido. Afinal de contas, aquilo de que gostamos é parte de quem somos.

    Eu vivo comigo mesmo, embora possa parecer estranho às outras pessoas a maneira como o faço. Se lhes conto, dizem que a minha vida é desinteressante. Eu cá não acho as delas melhores do que a minha.

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  7. O teu texto está mui belo.

    Fizeste uma narração do típico crescimento por que todos nós passámos, de uma forma engraçada e deliciosa.

    Ainad hoje guardo os Pokémons numa gaveta atrás da orelha, mas já não como Bollicaos porque o seu sabor já não é o mesmo. Ou alteraram a receita, ou as minhas papilas gustativas sofreram alterações. Ou simplesmente já não os como nos locais certos, como antigamente.

    Não vivo a pensar na idade que tenho, vivo com base naquilo que sou.
    Eu bebo das tuas palavras, com um sorriso nos lábios.

    A idade depois dos 18 é um mero indicador, usado pela sociedade, para que devas proceder de um determinado modo, de acordo com o que a média da população alcançou. Por isso muitas pessoas deprimem quando começam a ver os seus amigos a comprar casa, casar e a engravidar. Começam a viver em função dos desejos da sociedade e a perderam-se de si mesmas.

    Eu não diria que seja dado à solidão, mas mais à introspecção.

    A solidão é, sobretudo, um comportamento enquanto que a introspecção é mais um traço de personalidade.
    Nisso, eu e tu somos parecidos pois também prefiro lugares que me permitem cogitar sem desassossegos sobre o que estou a ver e, consequentemente, a sentir do que sítios atestados de gente. Embora goste, por vezes, de frequentar ruas cheias de pessoas só para ver como elas desempenham a tarefa improrrogável de todos nós, que é viver.

    As premissas vão-se formando, progressivamente, ora com chuva ora com mais sol, e um dia acabarás por compor o silogismo mais importante da tua vida =)

    (tu, e eu também)

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    1. Parece-me que as tuas papilas gustativas sofreram alguma alteração. Aqui há uns tempos pedi à mãe para voltar a comprar bollycaus para eu lanchar e a única diferença que notei foram os cromos, que já não têm tanta piada como antigamente. Lembro-me de coleccionar os cromos dos Digimons e sempre que estou no sótão fico à espera de reencontrar a caderneta.

      Acho que tens toda a razão quando dizes que os 18 anos são como um sinal de trânsito. Perde-se alguma naturalidade e originalidade no saborear do dia-a-dia porque passamos a agir de acordo com o que a sociedade espera de nós, não com aquilo que realmente gostamos e que até nem faz mal a ninguém.

      Eu gosto bastante das estações do Metro precisamente para ver as pessoas a viverem ou a existirem. Gosto de tentar conhecê-las através daquilo que vejo e através disso aprender. Aprendemos com os outros, por isso locais atestados de gente não são necessariamente maus, tudo depende do lugar.

      Espero não enganar-me no silogismo. Uma falácia poderia ser problemática...

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