Hoje vi um menino a brincar com a balança da fruta da loja. Estava completamente fascinado com o deslocamento do ponteiro. Pegava em laranjas e ia enchendo a taça, ria-se ao ver o ponteiro a deslocar-se, pegava em maçãs e acrescentava à balança já quase cheia, gritava pela mãe e dizia "mãe, o ponteiro está a andar!". É claro que a mãe não achou piada nenhuma e mandou pôr as laranjas e as maçãs todas no sítio. Eu achei. Olhei para ele e sorri-lhe. Ele ficou envergonhado.
Apanhei o Metro para regressar a casa. Lá fora, o céu ia mudando de cor à medida que as pessoas entravam e saíam nas várias estações. Numa delas, a minha carruagem parou exactamente ao mesmo nível que a carruagem do lado oposto. Olhei pelo vidro e estava uma rapariga encostada à janela. Dormitava, mas naquele momento abriu os olhos, olhou para mim e sorriu-me. Eu fiquei envergonhado. Ainda fui a tempo de retribuir o gesto. O Metro recomeçou a andar e sentou-se ao meu lado um senhor. Sorri-lhe, mas ele virou-me a cara.
Volto a casa depois de passar pela varanda da avó. Lembrei-me dela quando à minha frente seguia um menino que pediu à senhora de idade que o acompanhava para esperar um pouco porque ele queria ver os passarinhos que estavam numa janela. Parei um pouco na varanda, mas a avó não estava. A avó agora vê as pessoas lá de cima. Espero que esteja bem e que me tenha ouvido dizer que gostava muito dela. Acho que nunca lho disse quando ia lá a casa, mas espero que ela saiba que sempre gostei dela.
Caminho pela casa com as luzes apagadas e vou sabendo pela sensação que o chão me provoca em que divisão da casa estou. Os barulhos ajudam. Chão quente e madeira a estalar, sei que estou no quarto ou à porta dele. Frio nos pés diz-me que estou no quarto-de-banho. Se sinto cócegas, estou em cima do tapete da sala. Chão frio, ar frio, é a cozinha. Abro o frigorífico, retiro um iogurte e vou comê-lo para a varanda. Misturo o compartimento das pintarolas com o do iogurte e lá vai a primeira colherada. Agora é a vez da língua sentir o frio enquanto ouço o chocolate a a ser esmagado pelos dentes. Ajeito-me no parapeito e vou devorando o resto do iogurte, deixando as pintarolas para o fim como fazia quando era pequeno. Se fosse criança, a mãe não me deixava estar sentado ali porque facilmente podia cair. Agora isso já não acontece. Com o passar da Lua que vejo lá em cima, as calças foram deixando de servir e agora já sou capaz de estar sentado na varanda com os pés no chão. Sinto-me seguro ali, a ver as sombras dançantes da roupa que está a secar no estendal. Talvez um dia aquela camisola já não me sirva ou a t-shirt perca a cor de tantas vezes que a usei e sujei. Por enquanto, ainda estão em condições para que amanhã as use.
Eu gosto imenso de receber um sorriso no metro. Gostava de me cruzar contigo :)
ResponderEliminarAdoro as sensações que descreveste em tua casa. Quando acabei de ler fechei e imaginei tudo. Foi bom
:P
EliminarTalvez não seja má ideia dizeres à tua avó - até pode ser em segredo - o quanto gostas dela. Bom, ela até pode saber, mas não te custa nada confirmá-lo, não é?
ResponderEliminar...Pensa, por exemplo, que ela pode não ser capaz de se orientar numa casa às escuras. Irá ser agradável para ela que alguém lhe dê a mão!
Não, não custa. Segredei-lhe ontem e vou fazê-lo hoje novamente. E terei sempre estrelas para lhe iluminar a casa!
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