segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Créditos finais

Não sou nenhum actor de cinema. A minha vida não é um filme. Não há um enredo definido para o quotidiano. Não há um salário rechonchudo nem sessões de autógrafos (se bem que eu assino em todos os cadernos que me vêm parar às mãos).
O meu dia não começa com os logótipos das produtoras, seguido das palavras "starring K. in 'SER OUTRO QUE NÃO EU'". Não, começa logo com uma cara remelenta, cabelo despenteado, olhos semicerrados. Eventualmente durante o dia assumo uma postura melhor, mas também rapidamente me sento com os cotovelos apoiados no tampo da secretária e os punhos espetados nas bochechas.

Devo assumir uma cara muito estúpida com as bochechas esticadas.

E claro, não poderia haver letras grandes a combinar o meu nome com o blogue. Uma janela do Chrome sem registo está sempre à espera para ser aberta, o rato pronto a minimizar ou a fechar a janela sem registo e uma janela normal já está pronta para disfarçar tudo.

Olha, se calhar a minha vida podia ser um filme, simplesmente teria um duplo a maior parte do tempo. E desses duplos nunca ninguém sabe nada, às vezes nem nos apercebemos que eles existem...


Acho que se entrasse num filme, teria o papel de saco de pancada. As pessoas gostam de descarregar em mim. Se calhar é por ser magro e não lhes custar tanto. Se calhar é por saberem que sou parvo e que vou esquecer tudo. Se calhar é porque sou um saco tão bom, mas tão bom, que todos os realizadores me querem.

Juro que não percebo porque ficaste chateada comigo. Eu sim, devia ficar chateado com o azedume das tuas palavras, mas acredito que não me querias dizer aquilo. Acredito que mais cedo ou mais tarde, elas vão voltar a saber a morango.

"Mais cedo ou mais tarde" é também uma outra incógnita da vida.
Mas neste caso, já restringi o conjunto solução. Está a tardar, mas eu espero.


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