domingo, 14 de agosto de 2011

"Porque é que quando estou calado, ouço vozes dentro de mim?"

Gostava de ler o pensamento das pessoas. Não porque quisesse saber os seus segredos íntimos, não porque não haja mais nada interessante para fazer, não porque gostasse de fazer disso a minha vida. Gostava somente de saber se quando estão caladas, sozinhas, fazem como eu.

Quando estou calado, não estou calado comigo mesmo. Estou sempre a fazer perguntas, algumas dirigidas a mim outras a alguém - a Deus -, critico o que fiz e o que não fiz, canto para mim mesmo, crio histórias ridículas na minha cabeça (algumas das quais gostaria que fossem realidade) e sei lá mais o quê.

Às vezes tenho medo de me ir deitar.

Não, não é por causa do bicho papão, nem por achar que tenho monstros debaixo da cama ou no guarda-roupa. A única vez que me lembro de ter medo que estivesse alguma coisa no quarto foi há muito tempo e eram tubarões. Achava que tinha um bando de tubarões a nadar à volta da minha cama.

Não, não é por causa de aranhas que desconheço existirem no quarto ou outros bichos quaisquer. Os cientistas dizem que comemos perto de uma dezena de aranhas numa vida enquanto dormimos e embora isso seja algo nojento, consigo dormir à noite.

Não. Tenho medo é de me deitar por causa do que vou ou não pensar. Há pensamentos que são assim coisinhas irritantes que vêm em momentos em que tudo o que queremos é topping de morango.

Ontem deitei-me e resolvi desligar o telemóvel. Ele costuma ficar ligado, silencioso (não penses que ainda o deixo com o som ligado), não me incomoda sequer, mas ontem uma parte de mim quis desligá-lo. 

Os lençóis estavam frios, a cama tinha sido feita de lavado. A almofada não era a minha. Alguém deve ter-se enganado a pôr a fronha. Estranhei a falta de recheio, mas não quis procurar a minha almofada. Sabia que ia custar a adormecer, com ou sem a almofada certa.

Nunca se deve ignorar um Gritador (o Neville descobriu-o da pior maneira), pelo que dali a nada alguns pensamentos começaram a destilar. Tentei não prestar-lhe atenção, mas era escusado. Analisei-os não um a um, mas vários ao mesmo tempo. Vinham aos pares, às vezes aos trios. Uma confusão. Às vezes nem tinham nada a ver uns com os outros. Foi uma destilação mal feita.

Vento, gaivotas, não as ouvi. Ouvi o camião do lixo a passar na rua lá em baixo e o barulho que as sacas faziam ao serem atiradas lá para dentro.


Mesmo antes de me ir deitar fui-me pesar. Quando acordei voltei a assentar os pés sobre aquela superfície fria. 900 gramas tinham ficado algures entre a noite. Mas os pensamentos continuavam cá.O ar ocupa espaço e pode ser pesado, mas os pensamentos não. Não seria nada se não os tivesse, por isso tenho [tenho?] de lidar com eles.

A Lua estava quase em lua cheia, não era? Acho que ontem à noite não a vi, mas vi-a anteontem. Mas existem outras luas, outras que não são constituídas por anortosito e feldspato. O Ursinho Pooh ia gostar delas. São de mel, ou pelo menos assim chamadas.

"A nossa lua de mel vai brilhar toda a vida. Os seus raios só se apagarão sobre o teu túmulo ou sobre o meu".
Charlotte Brontë ("Jane Eyre") 

Talvez um dia me vejas sentado de perninhas à chinês na Biblioteca, a ler as lombadas dos livros ou a folhear algum deles. Gosto do cheiro do papel.
Talvez um dia me pises a mão e depois me peças desculpa. Eu responderei com um "desculpa eu". É a força do hábito.
Talvez um dia sejas tu o meu pensamento. Ou talvez me ajudes a fazer a destilação. Nunca gostei de destilações. Então fraccionadas eram uma valente seca.

E o "tu" é tão incógnito [da próxima vez que resolver uma equação, uma das incógnitas será "tu"]. Quer dizer, só o "eu" é exacto e conhecido. "Tu" não. Quem é o "tu"? Não sei. Por vezes, as equações não têm uma solução. Ainda não estou certo se esta tem ou não.


"Fica sempre à minha espera e então, alguma noite hás-de ouvir-me grasnar"




Ando à procura de uma coruja

7 comentários:

  1. Tenho a sensação de que mesmo sem saberes, tens esse poder...


    Adorei. E estou apaixonado pelo layout deste blogue!!!

    Saty Well

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  2. Não sei se tenho. E mesmo que tenha, posso sempre errar.

    Obrigado por gostares do layout! :D

    Abraço ;)

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  3. Acho que, infelizmente para ele, o ursinho Pooh nunca deve ter tido uma lua de mel :s

    "Talvez um dia me vejas sentado de perninhas à chinês na Biblioteca, a ler as lombadas dos livros ou a folhear algum deles. Gosto do cheiro do papel.
    Talvez um dia me pises a mão e depois me peças desculpa. Eu responderei com um "desculpa eu". É a força do hábito."
    Quando estiver na biblioteca outra vez e vir um rapaz sentado de pernas à chinês entretido a saborear um livro vou tentar não o pisar então :P

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  4. Se o pisares, só tens de lhe pedir desculpa e oferecer um kit kat. ou um snickers. ou mesmo um kinder bueno :)

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  5. Ah pronto, fica prometido então, vou passar a andar com um snickers ou um kit kat ou um kinder bueno só para o caso xD

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  6. Além de a partir agora andar "preparado" com kitkats, snickers ou kinderbuenos, gostava de te dizer que não és o único que "Quando estou calado, não estou calado comigo mesmo. Estou sempre a fazer perguntas, algumas dirigidas a mim outras a alguém - a Deus -, critico o que fiz e o que não fiz, canto para mim mesmo, crio histórias ridículas na minha cabeça (algumas das quais gostaria que fossem realidade) e sei lá mais o quê."

    Eu também sou assim. E por vezes dá-me para partilhar isso com as outras pessoas.

    Abraço :)

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    1. Ahahahah :D É sempre importante ter chocolates na mochila! Os meus duram pouco, porque partilho-os todos com os amigos. Quando precisar mesmo deles acho que não os terei x)

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